O papel da telemedicina na transformação digital da Saúde 

Por Bruna Rosso, Daniel Brant, Davi Almeida e Isabella Vallejo, com colaboração de Letícia Aguiar

  • Transformação digital na Saúde tem potencial de personalizar experiência do paciente por meio de um ecossistema integrado e otimizar a produtividade clínica. 
  • Telemedicina tem sido “porta de entrada” para players de Saúde e para pacientes no ecossistema digital. 
  • Os grandes players podem intensificar sua participação na transformação digital da saúde por meio de disrupção inorgânica, num cenário em que startups catalisam a inovação.

A transformação digital da saúde é uma realidade que irá redefinir a maneira como pacientes são tratados e como os provedores de saúde entregam seus serviços. A reformulação da saúde pela ótica digital gira em torno da personalização da experiência do paciente por meio de um ecossistema integrado capaz de oferecer, com comodidade, intervenções customizadas e precisas. Além disso, garante aos provedores de saúde otimização da produtividade clínica e maior precisão no atendimento. 

Um dos elementos mais relevantes no contexto da transformação digital da saúde é a telemedicina¹, que pode ser entendida como atendimento primário e especializado, com prescrição digital, conceitualmente denominada teleconsulta. Ela tem sido o ponto de partida de adaptação de grandes players à saúde digital e é capaz de melhorar a experiência do paciente, tornando-a mais cômoda e ágil, além de digitalizar e centralizar informações relevantes para alimentar o ecossistema integrado da saúde digital. 

A telemedicina surgiu em 1994, mas teve um crescimento vertiginoso durante a pandemia de Covid-19. Inicialmente, healthtechs de telemedicina surgiram para suprir uma demanda ainda adormecida pelo atendimento remoto, não atacada por grandes players da saúde, que sofriam pela falta de regulamentação do setor. Então, durante a pandemia, houve um boom de demanda: entre março e dezembro de 2020, houve uma queda de 27 milhões de atendimentos médicos eletivos em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM), enquanto a telemedicina cresceu cerca de 372% de março de 2020 até setembro de 2021 – dados da G2 Learning Hub. Isso, somado à regulamentação temporária estabelecida no Brasil, gerou um cenário propício às healthtechs de telemedicina, que surfaram nessa onda e tiveram um crescimento exponencial, oferecendo seu produto principalmente para os grandes players que não estavam preparados para disponibilizar esse canal digital. 

Após esse boom e com a flexibilização dos protocolos de Covid, a telemedicina apresenta evidências de que continuará crescendo. Tal movimento pode ser evidenciado pelos seguintes fatores: 

  1. Foi aprovada, no dia 02/06/2022, a Portaria GM/MS Nº 1.348, que dispõe sobre as ações e serviços de Telessaúde no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Ela reconhece a Telessaúde como um meio, atestado pela comunidade científica, de ampliar o acesso universal e integral à saúde. 
  2. O Conselho Federal de Medicina (CFM) divulgou a Resolução nº 2.314/2022, que define e regulamenta a telemedicina no Brasil, como forma de serviços médicos mediados por tecnologias e de comunicação, trazendo grande legitimidade à prática. O presidente do CFM afirmou, ainda, que se trata de um método com grande capacidade de levar assistência ao interior e reduzir a sobrecarga em grandes centros. 
  3. O CFM disponibilizou o Certificado Digital do CFM em nuvem, possibilitando que os médicos assinem digitalmente prescrições de exames, receituários e outros documentos médicos, e criou a própria plataforma de prescrição digital em conjunto com o Conselho Federal de Farmácia (CFF) e o Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI). 
  4. Existem dois projetos de lei em tramitação no Senado Federal (PL nº 1998/2020 e PL 4223/2021) que autorizam e definem a prática da telemedicina no Brasil, estabelecendo, dentre outras medidas, a atuação dos profissionais de saúde em todos os estados.  
  5. Estudos como o da Global Market Insights preveem crescente movimentação financeira na área de saúde digital, com projeção de um market size global de US$ 426.9 bilhões em 2027. Já no que diz respeito ao Brasil, o estudo realizado pela Statista Global Consumer Survey é de um volume de mercado de US$ 3.13 bilhões em 2026.

Uma vez que o futuro da saúde está na telemedicina e na digitalização, os grandes players – grupos hospitalares e as operadoras de planos de saúde – já estão se adaptando e precisam buscar formas de capitanear essa transformação. Todas as evidências e contextos apresentados demonstram como a saúde digital e a telemedicina podem trazer desenvolvimento e democratização da saúde no Brasil e como ambos são caminhos sem volta. Para que a transformação se acelere e essas organizações não fiquem para trás, um caminho viável é o da “disrupção inorgânica”, ou seja, viabilizar a inovação disruptiva por meio de aquisições de healthtechs, além da criação de fundos de CVC ou venture buildings, o que já vem sendo feito por alguns players. 

Ao mesmo tempo em que se evidencia o potencial dos grandes players, vemos também que as startups catalisam a inovação da saúde digital no Brasil.  

Neste artigo, entenderemos esse ecossistema mais a fundo e identificaremos como os grandes players podem agir para ampliar sua capacidade de capturar valor nesse cenário.  

Quais as soluções disponíveis de telemedicina no mercado brasileiro e o que as caracteriza?

Para encontrar as oportunidades dentro de um mercado, é preciso, primeiramente, compreender seus segmentos. Atualmente², existem três³ principais segmentos de atuação na telemedicina: provedores de saúde com atuação exclusiva na telemedicina, provedores que atuam na telemedicina e na saúde tradicional e marketplaces que funcionam como canal de conexão entre médicos e pacientes. Caracterizamos os três segmentos com base no estudo de 14 healthtechs com relevante market share e maturidade nas soluções.

Tabela com serviços de telemedicina

Nesses segmentos, o modelo de atuação pode variar entre B2C e B2B, sendo o primeiro o mais recorrente e o segundo presente apenas no segmento 2. 

Os provedores de saúde via telemedicina (não exclusivo), como clínicas populares e grupos hospitalares, oferecem apenas soluções diretamente para o paciente, assim como as plataformas “marketplaces” que oferecem telemedicina como um canal. Ou seja, ambos atuam dentro do segmento B2C. 

Já dentre os provedores de saúde via telemedicina (canal exclusivo), vemos que a maioria dos players relevantes são healthtechs que possuem modelo de negócio com o foco em B2C por meio de consultas individuais ou programa de saúde (concorrente de planos de saúde populares) e no B2B oferecendo uma terceirização dos serviços de saúde para seguradoras e planos de saúde.

Quais os serviços e funcionalidades oferecidos pelas healthtechs?

A partir das 14 healthtechs analisadas na caracterização dos segmentos, mapeamos os serviços e funcionalidades oferecidos no mercado com o objetivo de identificar como os players podem se diferenciar. 

Em relação aos serviços oferecidos, diferenciam-se os players com acompanhamento crônico e ampla gama de especialistas. O foco dos players em grande parte são consultas com clínicos gerais, sem necessidade de especialistas. Destacam-se os players que oferecem serviços de acompanhamento crônico remoto por meio das plataformas – tratamento que presencialmente exigiria aos pacientes muito desgaste com deslocamento –, e os que oferecem ampla gama de especialistas.

Serviços oferecidos de telemedicina

Pronto socorro: atendimento imediato, mediante triagem, e disponível 24/7 com clínico geral. 

Atendimento primário: atendimento agendado com clínico geral. 

Atendimento especializado: atendimento agendado com especialista e definir. 

Programa de acompanhamento crônico: protocolo de acompanhamento médico periódico via telemedicina ou por mensagem. 

Acompanhamento psicológico / psicoterapia: atendimento agendado com psicólogos ou psicoterapeutas. 

Em relação às funcionalidades oferecidas, diferenciam-se os players com orientação médica automatizada e agendamento e resultado de exames. Observa-se que a prescrição eletrônica é uma funcionalidade totalmente difundida entre as healthtechs. Por outro lado, as funcionalidades menos comuns são orientação médica automatizada e agendamento e resultados de exames. Ou seja, o trabalho humano ainda é pouco otimizado por inteligência artificial e as soluções de telemedicina estão pouco integradas com clínicas onde se realizam exames.

Funcionalidades da telemedicina

Orientação médica automatizada: inteligência artificial de pré-diagnóstico com redirecionamento do paciente para atendimento presencial ou remoto.  

Prescrição eletrônica: é a geração, transmissão e preenchimento eletrônico baseado em software médico de uma receita. Hoje, essa funcionalidade é vista como um must have das plataformas. 

Histórico e dados médicos: o prontuário digital com histórico de exames, consultas e procedimentos integrados com monitoramento remoto é claramente um diferencial e oferecido pela maioria das plataformas. 

Agendamento e resultados de exames: poucos players oferecem integração com laboratórios e disponibilização dos exames dentro da plataforma. 

Descontos em farmácia e remédios: conexão com marketplaces de farmácias e oferecimentos de descontos são funcionalidades presentes na maioria dos players.

Como os grandes hospitais e operadoras de planos de saúde têm atuado dentro da telemedicina?

Todos os grandes hospitais e operadoras de planos de saúde adaptaram-se à telemedicina, mas o primeiro grupo ainda apresenta soluções defasadas em maturidade e inovação quando comparadas ao resto do mercado. 

Grandes Hospitais 

Foram estudados 10 dos maiores e mais bem avaliados hospitais do Brasil: Hospital Israelita Albert Einstein, Hospital Sírio-Libanês, Rede Materdei de Saúde, Beneficiência Portuguesa, Rede D’Or, Dasa, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Hospital Moinhos de Vento, Hospital Santa Catarina e Hospital Mãe de Deus.  

Todos esses hospitais se adaptaram de alguma forma à telemedicina, permitindo pelo menos a realização de teleconsulta para pronto atendimento ou para clínica geral. Entretanto, observou-se que, no geral, as plataformas de telemedicina utilizadas pelos grandes hospitais apresentam maturidade e usabilidade defasadas em relação às healthtechs consideradas no estudo. 

Além disso, todos os hospitais possuem solução própria de telemedicina, podendo haver terceirização da plataforma de chamada de vídeo.  

Operadoras de planos de Saúde 

Foram analisadas 6 operadoras de planos de saúde com grande relevância nacional: Bradesco Saúde, Hapvida, Amil, Unimed, Notredame e SulAmérica. 

Assim como os grandes hospitais, todas as operadoras de planos de saúde possuem solução própria de telemedicina. Entretanto, comparado com os grandes hospitais, as soluções digitais das operadoras são mais maduras e têm melhor usabilidade. Afinal, enquanto quase todos os hospitais citados utilizam portais online, a maior parte desse grupo de operadoras possui aplicativo próprio. 

Por que a telemedicina é apenas um canal dentro da saúde digital?

Embora existam boas oportunidades na telemedicina, o ecossistema da saúde digital vai muito além dela, de modo que a atuação dos players não deve se limitar a este canal. O ecossistema de saúde digital é muito amplo e compreende uma série de canais, plataformas e tecnologias diferentes que atuam para agregar valor ao paciente. Veja o quadro abaixo.

Saúde digital

Ainda assim, a telemedicina é um bom meio de entrada para os pacientes e para os players na saúde digital. Como mencionado anteriormente, os players de saúde digital têm a telemedicina como porta de entrada, pois é uma das formas mais difundidas e fáceis de adaptação a este cenário digital. Da mesma forma, para o paciente, realizar uma teleconsulta tende a ser muito cômodo e oportuno, afinal, a consulta presencial pode ser mais difícil de agendar e a locomoção requer maior desgaste, custo e tempo, ainda mais para moradores do interior ou para pessoas com deficiência.

A partir dessa demanda latente, os provedores de saúde podem aproveitar o primeiro contato do paciente com a saúde digital por meio da telemedicina e utilizar de instrumentos para retê-lo, como o monitoramento remoto, os mecanismos de engajamento ou outras opções apresentadas acima.  

Entretanto, os players que adentrarem neste ecossistema devem se atentar a um ponto: a integração envolve grande volume de dados sensíveis. Um dos principais objetivos do ecossistema da saúde digital é promover a integração de informações e serviços, facilitando a vida dos pacientes e otimizando a atuação dos provedores de saúde. Para que a integração aconteça, é necessária a manipulação de dados sensíveis, de modo que aqueles que administrarem tais dados devem se atentar à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) em respeito à legislação e aos pacientes. 

Como os players da saúde podem capitanear a saúde digital, começando pela telemedicina?

Vimos que os grandes players da saúde já iniciaram sua atuação dentro da telemedicina, mas sabemos que ainda existem oportunidades pouco exploradas na área. A adaptação dos provedores tradicionais de saúde à telemedicina, conforme apresentado, ainda tem maturidade defasada em relação a outras soluções do mercado. Mostramos, também, que dentro da telemedicina existem diferentes serviços e funcionalidades que podem ser oferecidos. Dessa forma, os players têm as seguintes opções para explorar a área: 

  1. Aprimorar internamente os serviços, funcionalidades e tecnologias para tornar a experiência do paciente a mais completa possível, destacando-se em relação aos concorrentes. 
  2. Desenvolver novas tecnologias internamente por meio de venture-building, fazendo spin-offs (sob o risco de não terem a agilidade suficiente); 
  3. Criar ambientes de inovação para desenvolver soluções disruptivas por meio de parcerias, funding (CVC) ou até mesmo M&A; 

 

Por fim, os provedores de saúde que desejarem capitanear a transformação digital da saúde no Brasil devem explorar as várias facetas do ecossistema. Entendemos que a transformação digital da saúde é impulsionada pelos vários benefícios que gera aos pacientes, como comodidade e melhor acesso, e aos provedores de saúde, como a redução dos custos de infraestrutura e otimização do trabalho. Porém, o maior benefício e objetivo final desta transformação é a integração do ecossistema da saúde.

A conexão entre as formas de cuidado com a saúde não proporciona apenas mais conforto para os envolvidos, mas garante que este cuidado seja o mais completo e assertivo possível. Portanto, explorar a amplitude do ecossistema da transformação digital da saúde não é apenas uma maneira de os players destacarem-se no mercado, mas a solução para o propósito mais importante de seu negócio: cuidar da saúde das pessoas da melhor forma. 

¹ O termo telemedicina adquire diferentes conotações a depender da entidade ou órgão que o utiliza, mas a maioria das definições referem-se a um conceito amplo, análogo a saúde digital. De acordo com o CFM, telemedicina é “exercício da medicina mediado por Tecnologias Digitais, de Informação e de Comunicação (TDICs), para fins de assistência, educação, pesquisa, prevenção de doenças e lesões, gestão e promoção de saúde”. 

² Estudo realizado em 2022. 

³ Há um quarto segmento de tecnologia de telemedicina para clínicas, hospitais, médicos independentes e planos de saúde, além de CRM e gestão clínico/hospitalar que está fora do escopo do estudo. 

BRUNA ROSSO é gerente sênior na EloGroup 

DANIEL BRANT é gerente na EloGroup 

DAVI ALMEIDA é diretor executivo na EloGroup 

ISABELLA VALLEJO é diretora na EloGroup 

LETÍCIA AGUIAR é estagiária na EloGroup 

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