Octaciano Neto: “as tecnologias digitais vão acelerar a evolução do agro”

Por EloInsights

  • Em entrevista, Octaciano Neto, diretor de agronegócios da EloGroup, fala sobre o novo paradigma do setor, que envolve a integração de alavancas digitais e do mercado de capitais.  
  • Segundo Octaciano, esse novo paradigma precisa ser acoplado ao antigo, da química, biologia e da mecanização.  
  • Absorvendo tecnologias de analytics, algoritmos e inteligência artificial, o agro poderá dar um novo e importante salto de produtividade, segundo ele.   

Como Secretário de Agricultura do Estado do Espírito Santo, entre 2015 e 2018, produtor rural no mesmo estado, e atual diretor de agronegócios na EloGroup, Octaciano Neto lida diretamente com os desafios desse setor, que passa por uma transformação histórica. 

Em entrevista à redação da EloGroup, Octaciano explica como as novas alavancas digitais e o mercado de capitais, que ele resume como um “novo paradigma”, precisarão ser integradas ao “antigo paradigma” do agro, composto pela biologia, química e mecanização, para dar conta de alimentar os cerca de 1 bilhão de pessoas que ainda não têm acesso a uma dieta saudável no mundo e 2 bilhões que irão nascer até 2050, segundo a ONU.  

Ele acredita que será por meio do uso de novas tecnologias de análise de dados, algoritmos e inteligência artificial que o agro se aproximará da “agricultura autônoma”, substituindo a tomada de decisão intuitiva que até hoje vigora em muitas propriedades, e aumentará a produtividade sem expandir a fronteira agrícola.  

Mas, para que isso aconteça, os produtores precisarão estar abertos a mudar formas de trabalho, absorver novas tecnologias, e adotar uma cultura de experimentação. Em resumo, eles precisarão estar abertos para o novo.  

Na conversa, Octaciano fala ainda sobre a importância da blockchain como forma de garantir rastreabilidade dos alimentos, e como o Fiagro vem para “aproximar o mercado de capitais do interior do Brasil”, corrigindo distorções históricas no financiamento desse setor no país.  

Hoje nós vemos a digitalização da sociedade impactando muito as empresas, mas como é que isso está acontecendo no agronegócio?  

 Hoje existe um forte processo de digitalização no agronegócio. Todo o crescimento que nós tivemos do agro brasileiro nos últimos 50 anos tem três pilares: química, biologia e mecanização. Agora surge um novo pilar, que chamo de novo paradigma: a combinação das novas tecnologias digitais, da agenda ESG e do mercado de capitais alinhado ao velho paradigma. Uma coisa não substitui a outra. As tecnologias digitais não vão substituir a evolução da química, da biologia e nem da mecanização. Elas vão acelerar esse processo.  

No caso do agro, esse processo é um pouco mais lento por conta da questão da conectividade no campo. Hoje você tem 23% das propriedades rurais conectadas, com expectativa de chegar a 50% até o final de 2030. Mas eu posso olhar isso por dois ângulos, e sempre posso olhar o copo meio cheio. O fato de o agro não ter acelerado tanto no início por conta da conectividade se traduz também em melhores oportunidades, considerando que houve uma evolução e um amadurecimento dessas tecnologias.  

Outra vantagem é que nós temos pouco sistema legado, o que costuma ser um problema em empresas que se digitalizaram muito cedo. O agro nesse sentido vai super bem. Com o uso de sensores, tecnologia de imagem, blockchain, e a integração de tudo isso. Vejo empresas fazendo melhoria genética a partir de analytics, simulando cruzamento de clones, construindo data lakes, usando inteligência artificial. Isso vai acelerar demais.

Na sua visão, quais são as principais tecnologias que hoje têm impactado o agro? Quais delas um empresário do setor não pode deixar de acompanhar se quiser se manter na ponta da inovação?  

A gente caminha para o que eu chamo de agricultura autônoma. Até hoje funciona assim, o produtor rural tem as informações dispersas na propriedade e não digitalizadas, e toma as decisões de acordo com o que ele está vendo. Por exemplo, se o produtor vai irrigar – e irrigar é caro porque usa energia elétrica, por isso se irriga à noite quando a energia é mais barata – ao final do dia, ele passava a bota no chão, via se estava úmido ou não, e aí tomava a decisão. O processo decisório era intuitivo, baseado em experiências.  

Com as tecnologias digitais, isso muda. Nós temos sensores no solo que informam exatamente o nível de umidade, qual a cultura que está ali, qual a umidade da cultura, qual a necessidade hídrica daquela planta e sabe ainda se vai chover à noite ou não. Então começa a ser criada uma base de dados enorme para que o meu processo decisório seja muito mais assertivo.  

Outro exemplo: o processo de aplicação de adubo ou herbicida. O produtor vai no seu terreno, colhe amostras do solo, leva para o laboratório, três dias depois vem o resultado e ele decide qual o volume ele vai aplicar na fazenda. Agora a gente já tem tratores que vão na frente fazendo uma ressonância magnética no solo, e analisa a necessidade de aplicação de fertilizante por planta. Atrás, eu aplico a necessidade por indivíduo e não mais por conjunto da população. As primeiras experiências mostram que a redução de aplicação é de 30% com essa nova tecnologia. Pode ser que um indivíduo precise de mais e outro de menos, então isso está impactando enormemente.  

Ainda temos um desafio. Poucas empresas estão pensando na jornada, nas dores do produtor. Está sendo desenvolvido um conjunto enorme de apps, de soluções digitais, que ainda resolvem parte da dor do produtor. Ninguém usará 50 soluções. O próximo passo desta corrida será a integração das mais diversas iniciativas, num jogo de plataforma digital. 

Hoje fala-se muito do uso de inteligência artificial na indústria. Essa tecnologia também aparece com aplicações dentro do agronegócio? Quais são elas?  

Existem alguns exemplos. Pode-se usar inteligência artificial para fazer melhoramento genético em plantas. Existem culturas que demoram muitos anos para crescer. Com uso de inteligência artificial eu passo a ter uma base de dados com todo o meu histórico de desenvolvimento de clones num grande data lake, e com uso de algoritmos eu posso fazer simulações, e com base nesses dados apontar quais cruzamentos tendem a ser mais produtivos. Eu deixo de ter dezenas ou centenas de informações para tomar uma decisão e passo a ter milhões de possibilidades para tomar. Muda muito a escala e com certeza muda muito a minha assertividade.  

Outro exemplo é o da pecuária. Todo melhoramento genético na pecuária é muito baseado em fenótipo. Sempre no visual. Quando eu passo a fazer a análise a partir do genótipo, passo a olhar o genoma dos animais, a base de dados para tomar uma decisão se multiplica exponencialmente. Posso começar a fazer recomendações de cruzamento de indivíduos de forma mais assertiva. Isso significa que numa propriedade rural, se eu tenho uma geração de bezerros que produzem mais, eu produzo mais carne. Significa que eu vou produzir mais carne por hectare. Na soja também, vou produzir mais alimento por hectare. E com isso vou reduzir preço. Isso é ótimo para a sociedade.   

Outra tecnologia sobre a qual se fala muito é a blockchain. Como um empresário do agro pode pensar em aplicar a blockchain para otimizar seu negócio?  

A grande demanda no agro para a blockchainé a de rastreabilidade. Existe uma enorme mudança no perfil do consumidor no mundo. Nós temos dois grandes grupos. São 3 bilhões de pessoas que ainda passam fome, considerando 2 bilhões que ainda vão nascer nessa situação. Mas há outro bloco que começa a ter uma alimentação de melhor qualidade e quer saber a origem desse produto. A Europa está na vanguarda disso, mas países asiáticos como a China também têm pautado a discussão, questionado se os produtos são produzidos com boas práticas sociais e ambientais, se têm certificação ou se vêm de áreas de desmatamento. Basta observarmos como o uso do solo ganhou peso nesta última COP, em Glasgow, na Escócia. 

A legislação foi respeitada? Houve trabalho escravo? Sem blockchain isso precisa ser feito de forma manual, e a informação pode ser alterada ao longo do processo. Com a blockchain, depois que um input é feito, esses dados são invioláveis. Ainda existe um risco de o input do dado ser feito de maneira errada, mas é um avanço. Do jeito que é feito hoje, os dados anotados numa planilha podem ser mudados ao longo do caminho. A blockchain não permite isso. Então a grande força será no sentido de ampliar a segurança da origem do alimento. Essa inviolabilidade traz mais transparência e confiança para o mercado. 

Você pode falar um pouco mais sobre como as tecnologias de analytics podem ajudar um empresário do agro a ter um controle mais eficiente do seu negócio?  

Elas ajudam na melhora do processo decisório. Seja na sua empresa ou na sua fazenda, você precisa tomar um conjunto de decisões todos os dias. A partir do surgimento do big data, ao se criar capacidade de armazenar dados e analisá-los, eu melhoro o meu processo gerencial porque tenho mais informações para tomar decisões. E o uso de analytics na construção de algoritmos permite isso.  

Exemplo: eu tenho um histórico de plantio de cana e um histórico climático. Qual o melhor momento para eu plantar cana; nessa semana ou na semana que vem, considerando a minha necessidade de água? A partir de dados, podemos dizer se é melhor adiar um pouco o plantio porque na semana que vem a probabilidade de chover e ter um melhor resultado é maior. Qual a semente que eu usei de soja que me deu o melhor resultado? Qual a melhor composição de ração para eu usar para o meu frango, o meu suíno, o meu boi?  

O analytics permite avançar muito na melhoria do processo decisório, porque o aperfeiçoa. Habilita o próximo passo, que eu chamo de agricultura autônoma. Vou plantar hoje ou vou plantar na semana que vem? Coloco menos adubo? Aplico herbicida? São coisas cotidianas do produtor rural, mas são decisões tomadas geralmente com poucos dados. Na EloGroup nós fizemos alguns projetos de diminuição de estoques não produtivos. Com base no histórico, consigo aperfeiçoar a quantidade de peças que eu preciso ter no estoque, e assim diminuir o capital de giro. Ganho a capacidade de gerar recomendações que nossas cabeças não conseguem processar sozinhas. 

Cada vez mais vamos ver um agrônomo chegar nas fazendas ao lado de um cientista de dados. Uma profissão não substitui a outra; você precisa do conhecimento do negócio, porque o analytics não para em pé se você não tem quem conheça as regras do negócio. Essa combinação é perfeita para se atingir uma agricultura autônoma. 

Falando sobre uma perspectiva mais ampla, como essas tecnologias podem ajudar a garantir a segurança alimentar do planeta? Por que isso é importante?  

A agricultura tem três grandes finalidades: produção de alimento, produção de fibra e de energia. Dessas, a mais nobre de todas é a segurança alimentar. Isso não tira a relevância da produção de fibra nem de energia, mas certamente o uso mais nobre de todos é a produção de alimentos. A gente não vai conseguir ter mais área para produzir. Se eu tenho uma fábrica de carro, como eu faço para produzir mais carro? Eu crio outra fábrica de carro.  

No Brasil, temos 250 milhões de hectares disponíveis para a agropecuária. Não vou ter como transformá-los em 500 milhões. Pelo contrário. A pressão é que essa área seja diminuída. Ou seja, eu tenho que aumentar a produtividade para resolver o problema da segurança alimentar do mundo. E o velho paradigma sozinho não dá conta de resolver essa lacuna sem o uso de tecnologias digitais. Nós precisamos combinar as alavancas digitais com biologia, química e mecanização para produzir mais nos hectares que temos. Essas tecnologias vão habilitar um novo ciclo de produção de alimentos no mundo.

Do ponto de vista de investimentos, como, na sua visão, o Fiagro vai impactar o agronegócio brasileiro?  

O agronegócio é muito intensivo de capital. Em algumas culturas, ainda temos ciclos muito longos de produção. Imagina o eucalipto. Você cuida dele sete anos para depois ver dinheiro. É diferente de ter um comércio, por exemplo, em que o ciclo de capital de giro é muito rápido. No agro, é muito longo. Outro exemplo é a pecuária. A vaca tem o bezerro, que depois tem que engordar, e são quatro anos. Algumas culturas são mais rápidas, como a soja, mas, em geral, esse processo é longo. Isso explica por que o agro é tão dependente de capital de giro.  

Nós temos um problema no Brasil de financiamento ao agro. A carteira de crédito agrícola é de R$ 750 bilhões. Um terço é subsidiado pelo governo federal pelo Plano Safra; outro terço é financiamento direto dos bancos a taxas não subsidiadas; e o outro terço corresponde a operações de escambo, de troca – o que é um absurdo, um atraso do ponto de vista financeiro. É uma disfunção do mercado de financiamento ao agro. Isso existe para resolver o problema no financiamento. É só olhar nas indústrias de insumos. É comum ter balanços nos quais o resultado financeiro é maior que o resultado operacional. Ou seja, dá mais dinheiro fazer troca do que vender o produto.  

Nesse contexto, o mercado de capitais está entrando de forma acelerada no agronegócio, desenvolvendo novos produtos, mecanismos para resolver esse problema. Aí nasce o Fiagro, que vem para consolidar todas as políticas de crédito agrícola no Brasil. A XP prevê que os Fiagros terão R$ 75 bi captados até 2050. Hoje com R$ 100 você compra uma cota de um fundo imobiliário e vira sócio de uma laje na Faria Lima ou de um belo galpão.  

Com o Fiagro você pode financiar o agro diretamente. Ele vai aproximar o mercado de capitais do interior do Brasil, e combinar o uso de tecnologias digitais para fazer um novo salto. É preciso de dinheiro. O Fiagro é uma alavanca para poder impulsionar isso e produzir mais alimento, fibra e energia na mesma área sem precisar desmatar nenhum hectare de terra no Brasil. 

Na sua visão, o Brasil está preparado para vivenciar toda essa onda de transformação tecnológica que vem aí no agro? Como? 

Se a gente olhar o valor bruto da produção agropecuária, que é um indicador conhecido no agro, vamos ver que 9% dos produtores rurais do Brasil respondem por 88% da produção. Existe uma enorme concentração, e isso não é concentração fundiária, mas uma concentração produtiva. Temos poucos produtores rurais, cerca de 500 mil deles, que produzem quase tudo. Então um pedaço grande dos nossos produtores está super preparada. Outro pedaço grande está completamente fora do jogo.  

Para mim, os produtores que tiverem maior flexibilidade, e isso não tem a ver com dinheiro e nem tamanho da propriedade, mas os produtores que estiverem mais abertos ao uso de tecnologias, que forem mais curiosos, esses serão os vencedores. Você tem organismos de assistência técnica no Brasil todo, cooperativas dando assistência, mas muitos produtores não aceitam. Então não é uma lógica de tamanho da propriedade, ter dinheiro ou não. Para mim, é muito mais uma lógica de abertura para fazer experimentação. Tenho certeza que os produtores mais abertos ao uso de tecnologia, os mais abertos a fazer experimentações, a testar coisas novas, serão os vencedores.

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