Innovation Lab T3E2 – O boom das healthtechs: inovação no setor de Saúde

Apenas nos sete primeiros meses de 2021, o volume de investimentos em healthtechs, startups voltadas ao setor de Saúde, foi de US$ 216 milhões no Brasil; quase o dobro do total investido no setor em 2020. Neste segundo episódio da terceira temporada do Innovation Lab, Jaime Frenkel recebe Nádia Armelin, sócia da AGGIR Ventures, uma gestora de Venture Capital focada em Digital Health no Brasil, e Davi Almeida, diretor-executivo de Saúde na EloGroup, para discutir sobre inovação na prática no setor de Saúde, um dos mais aquecidos do país.

Transcrição do episódio

Jaime Frenkel:  

Sejam muito bem-vindos ao Innovation Lab, o podcast de inovação da EloGroup, que traz executivos e empreendedores que estão fazendo a diferença no Brasil. A ideia é compartilhar as trajetórias, ideias, estratégias de cada um de nossos convidados sobre como fazer a inovação acontecer na prática. Eu sou o Jaime Frenkel, diretor-executivo de inovação da EloGroup, e hoje tenho o prazer gigantesco de conversar com a Nádia Armelin, que além de ser uma grande amiga, é sócia da AGGIR Ventures. Ela tem uma trajetória bem longa na carreira, trabalhando com inovação sob vários pontos de vista, e vai contar um pouquinho para a gente sobre essa trajetória. A AGGIR Ventures é um fundo de investimento, de venture capital, focado em digital health no Brasil. O fundo tem mais de 90 cotistas que são sócios-investidores e ajudam o fundo a botar a mão na massa, gerar impacto e fazer a transformação que a saúde precisa no Brasil.  

O mercado de healthtechs no Brasil é um dos mais aquecidos no momento. Só para citar alguns dados de estudo da Distrito: nos primeiro sete meses de 2021 o volume total de investimento foi de US$ 216 milhões de dólares, mais que o dobro do total investido em 2020. Isso dá uma noção de como esse mercado está aquecendo. Esse mesmo levantamento mapeou mais de 900 startups brasileiras dentro do segmento de healthtech e todas estão de olho em inovar em um mercado gigantesco no país. De acordo com o IBGE, 9,2% do PIB brasileiro é gasto em saúde. Então, é um impacto gigantesco e uma oportunidade dessas startups estarem transformando um setor que impacta diretamente a vida de todo mundo. 

E para enriquecer a nossa discussão de hoje, sobre tendências no setor de saúde no Brasil, a gente não podia contar com uma pessoa melhor que o Davi Almeida, que é o diretor-executivo da Elogroup para o segmento de Saúde. Davi, é um prazer ter você aqui com a gente! Nádia, muito obrigado por aceitar participar com a gente desta conversa, é um prazer ter você aqui com a gente! Sei que a gente já conversou bastante, já interagiu muito ali, ao longo da sua trajetória, com vários chapéus diferentes, e é muito bom ter você aqui nesta edição renovada do nosso podcast. E, Davi, obrigado também por participar. Você conhece o setor de saúde e vai nos ajudar muito a ir trocando essas ideias e levantar a barra nessa discussão.  

Para começar, Nádia, falei na introdução sobre a sua trajetória. Você passou por vários lugares e por várias perspectivas diferentes. A primeira pergunta que gostaria de fazer é a seguinte: como você enxerga a diferença entre o olhar de inovação que um executivo tem, versus o olhar de inovação de um empreendedor, versus o olhar de inovação que você agora tem como uma investidora e liderando um fundo de investimento. O que muda nessas diferentes perspectivas e olhares?  

 

Nádia Armelin: 

Muito legal, gente, é um prazer estar aqui! Obrigada pelo convite! Jaime, você sabe que sou sua fã de carteirinha, fã da EloGroup. E, aí, dividir a mesa com o Davi para falar de saúde como vamos falar nas próximas sessões… é um peso grande, porque o cara entende de saúde acho que desde que nasceu! Bom, vamos lá, gente!  

Eu sou engenheira química de formação, me formei na Unicamp [Universidade Estadual de Campinas]. Hoje, quando eu olho para trás, a gente vai ficando mais velho e vai entendendo melhor as peças do quebra-cabeça. Acho que eu sempre fui uma pessoa que viu mais o upside que o downside. Então, assim, sempre via mais se uma coisa desse certo, qual poderia ser o ganho disso em vez de entender os riscos e o que posso perder. E esse é o mindset de inovação. E não foi à toa que fui fazer engenharia. Dentro da engenharia, minhas amigas assim de faculdade, sempre falavam que “ah, a Nádia sempre foi meio diferente, um animal meio diferente. Sempre quis fazer coisas diferentes, os programas eram sempre diferentes…”. E aí, eu comecei como pesquisadora desenvolvendo fórmula para tudo quanto é tipo de indústria que vocês imaginarem – de cosmético à construção civil – ali, de bancada mesmo. Depois, fui tendo uma carreira de sucesso em empresas grandes. E a primeira coisa que me vem à cabeça é que, quando você está no ambiente corporativo, em um ambiente de grande inovação, você tem recursos. Na época, a gente reclamava um monte, achava que não tinha recursos. E, hoje, eu vejo a diferença. Então, tinha muito recurso, material e acesso, muito acesso. Tem um lado maravilhoso disso, que você consegue fazer mais coisa. Mas tem uma armadilha, né, que é aquela assim do excesso. E, às vezes, você perde o timing porque a empresa fica muito grande, burocrática e as aprovações e tudo aquilo que você precisa fazer para colocar uma inovação de pé pode ficar mais moroso. Aí entram as empresas mais ágeis, não necessariamente menores, mas mais ágeis. Tem bastante empresa grande com mindset ágil e que consegue fazer essa virada.  

Em 2017, depois de ter feito uma carreira bem bacana dentro de inovação – e também passei por outras áreas na indústria química, resolvi empreender. Peguei todas as minhas economias, raspei o cofrinho e aí investi numa empresa de cosméticos, junto com outros sócios. E aí tem o founder-market fit, né, eu era praticamente isso. Mulher, engenheira química, já tinha trabalhado com formulação de cosméticos, então a empresa nessa época andava um pouco de lado quando fizemos o aporte do investimento. E fui tocar esse negócio. Fiquei por três anos à frente da empresa. Foi uma grande escola, os cabelos brancos vêm dessa época – eles já iam nascer anyway, mas vieram um pouco mais cedo. E, assim, o que mudou? Realmente era um mundo sem recurso material, então com muito menos dinheiro para contratar gente, mas a gente tinha muita agilidade e testava muito. E a gente tinha muita certeza… não quero estigmatizar empresa grande e empresa pequena, é sobre ter mentalidade de cultura de inovação ou não ter cultura de inovação. Eu, de certa forma, consegui imprimir aí nessa turma de cosméticos que errar faz parte. A gente tem que testar muito, porque num desses testes as coisas vão dar certo, mas tínhamos que testar com menos recursos. Era um trade off, achar o caminho aí de fazer esses testes de maneira mais barata.  

Quando eu penso em termos de jornada, Jaime e Davi, foi um negócio muito legal, porque poderia ter passado minha vida dentro de ambiente corporativo que tinha cultura de inovação. Tive sorte, também fiz parte da construção dessas culturas. E, outra coisa que super vale a gente falar sobre inovação: a inovação é ciclo. Então dava para perceber muito que tinha épocas em que estávamos em uma cultura de inovação muito forte, seja na empresa grande ou na empresa pequena. E tinham épocas em que isso se perdia. E, geralmente, isso se perdia porque havia uma composição de time, uma composição de momento, era muito apontar o dedo para a falha e menos pensando no upside. Acho que esses foram meus grandes take aways. 

 
Jaime Frenkel: 

Vou fazer uma pergunta aqui um pouco fora do roteiro, mas acho legal pegar a sua visão em relação a isso. O pessoal que está ouvindo a gente gosta muito do tema inovação e costumam ser pessoas inquietas, estão sempre questionando a carreira, se está no lugar certo, se dá para melhorar e para gerar impacto. Na sua visão, Nádia, quais as perguntas importantes para se fazer a você mesmo e saber se é hora de mudar tudo ou se vale a pena puxar mais um pouco, seguindo nessa trajetória. Se é sair do mundo corporativo, mudar para virar empreendedor, mudar para ser investidor. Tem alguma dica nesse sentido? 

 
Nádia Armelin: 

Eu já li bastante, mas acho que o importante de ler as coisas é você aplicar na sua vida, é o que você viveu daquilo que você leu. E, para mim, está muito relacionado à cultura do lugar em que você está. Na hora em que você olha para o lado e enxerga “estou sentindo que não pertenço mais a este lugar”. E, às vezes, não tem nada de errado com o lugar. Ou você mudou, ou o lugar mudou, ou as duas coisas juntas. É igual casamento. Às vezes as duas pessoas são ótimas, mas a vida vai mudando, os interesses vão mudando e o relacionamento acaba. É estar dentro de um projeto mais do que estar dentro de uma empresa, tem a ver com a cultura. Uma coisa que me incomodava nos ambientes corporativos, e estudando eu fiz esse frame. Em algumas empresas, os executivos são mandados embora pelos pontos fracos. Quando você é um founder, quando você é um empreendedor, não é isso que é medido. É medido exatamente o ponto forte, porque o ponto forte vai fazer a diferença. Então, sempre procurar uma cultura em que seus pontos fortes são muito ressaltados e que você consegue colocá-los em jogo. Se você está em algum lugar que, “poxa, não, deixa o ponto forte quietinho ali, só não erra, não pode errar, não deixa o seu ponto fraco aparecer”. Aí, para mim, é um lugar que não dá para ficar. 

E tive muita sorte das empresas por onde passei, porque sempre tive muito sentimento de dono, aquele negócio de muita liberdade para criar, muita liberdade para contratar, para testar. Mas, chegou uma hora em que exauriu um pouco. Tem também uma questão de tempo.  Cruza também tempo com idade. Eu tinha ido estudar fora, vi muita coisa bacana, troquei com muita gente e aí eu ficava pensando: “poxa, a gente passa pela terra com tão pouco, tem que testar”. E fui fazer um teste, talvez até já passando aí para a trajetória do venture capital, eu simplesmente me apaixonei por esse mundo mais ágil. O que é o investidor do venture capital? Você vive várias vidas na mesma vida. Como você faz investimentos em várias empresas – e aí consultoria tem muito a ver com isso, para mim, também, de você pular de projeto em projeto e talvez se dedicar mais em alguma prática. Você pode até comentar com a gente, você está ali em inovação, mas você vê tanta coisa diferente nas empresas. Então você vive várias vidas numa vida só.  

Quando você vai pro venture capital é exatamente isso. Seja na posição de empreendedor, e às vezes de empreendedor serial que vai fazer várias coisas. Ou na posição de investidor, de quem trabalha do lado de cá do balcão. Do balcão não, isso é uma coisa que eu tenho falado: não existe lado de cá e lado de lá, ta? Está todo mundo do mesmo lado querendo fazer com que as empresas e startups deem certo. Olhando com olhar de investimento, para você ter ideia, eu converso com uma startup por dia. Então você imagina quantidade de negócio, de gente com quem eu tenho falado. Esse negócio para mim foi o clique, na hora que eu empreendi falei “imagina se eu conversar com um monte de gente que empreende, a quantidade de coisa que eu vou aprender”. Como é que eu posso fazer o famoso cross sell, vender de um pro outro, passar informação de um pro outro. E é o que eu adoro fazer: conversar com pessoas, bater papo, fazer isso aqui que estamos fazendo, passar conhecimento para frente, aprender com as pessoas. Então, me achei no venture capital – para o momento. 

 

Davi Almeida: 

Acho que, nessa linha, Nádia, que você comentou – e resgatando a pergunta do Jaime, tem muito também de esbarrar com as oportunidades certas e com as pessoas certas no caminho. Porque nem todos os casos vão ser, como você falou, founder-market fit, tão direto. Em alguns casos, você vai ter que esbarrar com a oportunidade, ou – o que eu vi muito acontecer em saúde, apesar de saúde ser uma discussão muito de vocação no caso dos investidores – vi muita gente que não vinha originalmente da área de saúde, mas estudou o mercado e falou assim: “nossa, aqui tem uma oportunidade, é aqui que eu vou entrar”. Então, tem esses dois lados, de você esbarrar com a oportunidade, mas também, de forma direcionada, procurar ou buscar a oportunidade dentro de um setor que você acha que está em um momento legal.  

 
Nádia Armelin: 

Super concordo. Comigo foi assim, já vou contar minha história de como veio a ideia do fundo. Mas comigo foi exatamente assim. E Davi, tem que estar no jogo. Quem está no jogo enxerga oportunidade. Esses dias estava rindo, porque alguém falou assim “ah, cara, agora estou com 70 anos e estou muito mais chato. O que será que está acontecendo? Será que estou comendo algo diferente?”. E aí a própria pessoa falou assim: “Não, a verdade é que eu estou num projeto novo”. Então, as conexões que eu tenho feito, acho que as sinapses cerebrais ficam mais ativas. Uma vez que você está no jogo, você acha o seu espaço ali.  

 

Jaime Frenkel:  

Perfeito! E uma conexão que você fez ali, e que eu achei muito legal, é de sempre olhar para os seus pontos fortes e estar em lugares que te ajudem a reforçar esses pontos fortes. Isso é uma subida de barra contínua, né? Na consultoria é um pouco mais fácil, porque você cresce rápido na carreira, começa ali como estagiário, vira analista, daqui a pouco você está liderando um projeto, liderando uma prática, etc, isso é mais natural. Pelo menos foi assim na minha trajetória. Mas acho que, é o tempo inteiro as pessoas que estão em uma corporação, ou estão empreendendo, se fazem essa pergunta: “olha, o meu lado forte ainda está me desafiando aqui dentro, no lugar em que estou agora?”. “Ou será que cheguei num estágio em que não tem mais desafio para mim e é melhor eu procurar outra coisa?”. Cara, você falou isso e conectou muito com as minhas reflexões aqui também. E aí, Nádia, entrando neste último capítulo, o atual da sua jornada, que é as deventures. Como é que surgiu a ideia de fazer um fundo focado em saúde? O Davi falou um pouquinho ali como algumas pessoas de fora do setor acabam vendo que é uma oportunidade legal e entram ali dentro. Acho que foi o seu caso, porque você não estava no setor. Era cosmético e, de longe, pode ser parecido, mas na prática é bem diferente, né? 

 
Nádia Armelin: 

Eu acho que já fiz essa piada para o Davi uma vez. E, às vezes, as pessoas me perguntam como eu fui parar em Saúde e respondo que é porque sou hipocondríaca. Eu sou, de fato, ta? Estou melhorando, mas, brincadeiras à parte… fiz um ciclo de três anos num negócio de cosméticos, a gente conseguiu fazer uma jornada superlegal e com vários desafios. Tem vários desafios, porque o negócio continua lá com nosso supersócio, que tem tocado o negócio superbem. Então, de tentar equacionar LTV/CAC [Life Time Value/Custo de Aquisição do Cliente]. Então, não sei se todo mundo tem esse conceito. A grande dor ali era o custo de aquisição de cliente, porque a gente vendia em canais físicos de terceiros. Aí, pensando no quanto cada cliente vai gastar com você ao longo da vida dele, essa conta não fechava muito. A pandemia veio, a gente já estava com um superprojeto traçado de uma migração mais para o digital. Ajudou a gente para caramba. Eu brinco: a gente foi corajoso o suficiente, às vezes você precisa desses empurrõezinhos… e a gente fez um modelo totalmente – totalmente não, mas muito forte no digital. E aí essa equação do LTV/CAC veio. Então, hoje, a empresa está muito melhor do que estava antes da pandemia. Para se ter ideia, a gente comprou um blog, conseguiu tráfego orgânico. Um monte de aprendizados, depois podemos até fazer um outro papo sobre os aprendizados da época de empreendedora que hoje eu uso muito. 

Então assim, cumpri lá, estava fazendo o phase out em janeiro de 2020 e, nesse meio tempo, um grupo de amigos tinha investido numa plataforma. Na época, era uma plataforma de telemedicina chamada Conexa – acho que vocês até chegaram a fazer projeto lá, se não estou enganada – num estágio bem inicial. O founder, o Fernando Domingues, é muito amigo nosso. A gente ajudou muito nesse começo como investidores hands on. E o Jaleko, uma plataforma de educação para saúde, do Lucas e do Guilherme – que são founders que admiro de carteirinha – e a gente entrou também bem no começo. E, aí, eu sempre fui muito estudiosa e comecei a enxergar esse ecossistema de saúde. Isso foi um pouquinho antes da pandemia, e aí chegavam coisas do tipo ambiente altamente regulado, ambiente com um monte de ineficiência, com pouca tecnologia. Quando você conversava com muitos stakeholders – e o Davi dá aula nisso, você via uma cabeça, assim, um pouco mais analógica. Então eu via a oportunidade. Veio a pandemia… para você ter ideia, a Conexa fazia 300 consultas por dia antes da pandemia. Depois, passou a 18 mil consultas por dia. Foi um superacelerador do negócio. Empreender tem disso, estar no lugar certo na hora certa. Você tinha alguns outros players também de telemedicina, mas, ali na Conexa a turma estava com a ferramenta e com o ecossistema da rede de médicos melhor preparados. Então, estilingaram esse negócio.  

Comecei a estudar o setor de Venture Capital de saúde no Brasil e percebi que a gente tem bastante CVCs [Corporate Venture Capital]. Então, as empresas estão abrindo seus fundos para fazer seus investimentos em startups numa estratégia de inovação aberta, o que é bem bacana. E alguns fundos agnósticos, que a gente chama, que são fundos super-renomados, que performam muito bem VC [Venture Capital] com um pouco mais de apetite para health. Mas não existia o que a gente chama de single sector VC de saúde. Então, não existia um fundo verticalizado de saúde independente, né. E aí tem uma beleza de você ser independente, porque tem muito founder que às vezes olha o CVC e fala: “poxa, superbacana, mas não quero agora ter um investimento de CVC, porque tem aquela sensação de ter vendido muito cedo pro estratégico”. Às vezes essa estratégia pode ser boa, mas tem muito founder que prefere um fundo neutro, que a gente chama. 

Bom, aí a gente junto com essa turma aí, Romeu Domingues, Sidney Breyer, Marcelo Saad e o Roberto Botelho, que é um radiologista, médico e amigo ali de Uberlândia [MG], a gente resolveu levantar o fundo para fazer esses investimentos em startups de saúde no que a gente fala que é um early stage, que é um seed series A. Então, aqueles estágios iniciais e já explico por que também tem estudo nisso. Pegando aí o que eu brinco que é o mapa da saúde, que eu também já vou explicar um pouco da tese – troque bastante com o Davi nisso também. A gente começou a captar em janeiro de 2021. Em julho, a gente fechou o que a gente chama de primeira chamada de captação. A gente captou R$ 100 milhões, o que para um primeiro fundo é um feito superbacana. Mas mais do que o dinheiro, Jaime, é a qualidade do nosso investidor.  

A gente nem chama de cotista, a gente fala que são nossos sócios-investidores. Então, para você ter ideia, hoje tenho quase 100 cotistas, 100 sócios na base. Desses sócios, 20% são médicos com superautoridade clínica no Brasil e aquela galera que, assim, super à frente do tempo. Que entende que a tecnologia veio para ajudar, que a tecnologia em si não é a solução, mas combinada com conhecimento, com prática e clínica, é um super enabler [facilitador, em inglês]. Depois desses médicos, a gente tem founder de saúde – e essa galera é muito legal de ter aqui nesse ecossistema, porque todo mundo quer ser um investido ou um mentorado de um founder que deu certo. E em saúde é a mesma coisa. Então temos uma galera bem bacana, amigos. Tenho até medo de citar, porque a gente esquece as pessoas queridas. E aí como virou grow model para os novos empreendedores, traz isso para o fundo. Tem muito executivo de saúde. Aí eu brinco que se eu fosse executiva hoje, eu também colocaria as economias ali em tudo quanto é fundo, porque é uma grande fonte de aprendizado, né?! Você ali como executivo, no seu desafio de estar ali na posição do incumbente, que está ali podendo ou sendo ameaçado, mas mais do que isso – de novo meu olhar de upside, a oportunidade. Então, uma super escola aqui para a galera. Temos um monte de executivo bacana, de indústria de farma, de setor de hospital, pessoal de medicina diagnóstica. Aí temos a Sul-América como institucional. E a gente troca para caramba. A Sul-América tem um case superlegal. Eles iam começar pelo CVC e aí decidiram fazer uma estratégia de investir no fundo. Existem ali algumas estratégias de inovação aberta, né. E fizeram esse primeiro investimento aqui no fundo, mas muito provavelmente, para frente, vão fazer também um CVC. E tem sido uma troca super-rica. E também vários fundos de líquidos, galera que está cobrindo aí as listadas, também está aqui com a gente, com essa pegada de educação, de entender o que está acontecendo ali no nascedouro das empresas. E essa galera sabe para caramba do mundo de incumbentes. Então, assim, é uma troca riquíssima sobre o que na escala funciona, o que de fato pode disruptar. Como esses dois elos, do grande e do cara que está nascendo, podem colaborar. Então, estou me divertindo, Jaime! 

 
Jaime Frenkel:  

Legal, Nádia. E assim, pelo que você está me contando, a operação da AGGIR, por ser uma operação mais coletiva, com vários investidores muito mão na massa – pelo que estou entendendo, os sócios são mão na massa. É muito diferente essa operação da de outros fundos? 

 

Nádia Armelin:     

Acho bem legal falar disso, porque, de novo, não tem certo ou errado. Você tem uma estratégia de alguns fundos que a gente chama de spray and pray, né. Então, assim, faço uma série de investimentos e é meio aquele negócio numérico. Se eu fizer um monte de investimento, pensando numa distribuição de venture capital, vai ter um ou dois ali que vão dar uma porrada e aí você faz o retorno do seu fundo. A gente resolveu operar um pouco diferente. Aqui, a gente vai fazer de 10 a 15 investimentos, mais hands on, e aí uma combinação de fatores.  

A primeira é o que fiquei de comentar sobre o que é seed series A. Quando a gente olha a maturidade do mercado brasileiro em venture capital, apesar de estar esse frisson todo e recorde de fundos aparecendo, megarounds, etc e tal, é relativamente novo. E aí, healthtechs, o venture capital em saúde é até um pouquinho mais atrasado do que aconteceu, por exemplo, nas fintechs. Um dado interessante é que metade das healthtechs brasileiras foram fundadas de 2015 em diante. Pensando o tempo dessa turma, hoje no Brasil, ele gira de rodada para rodada, a gente tem uma concentração maior dessas healthtechs no series A. Então a gente se posiciona ali exatamente por ter um maior valor numérico, então aumenta a chance de ter coisa boa. E, é nesse estágio do seed para o series A – você, com certeza, já estudou um monte sobre inovação – que acontece aquele famoso cruzar o abismo. E aí nesse abismo, como a gente diminui o abismo e aumenta a chance de sucesso? Dentro do fundo, a gente acredita que a gente em ajudar na máquina de vendas, na abertura de porta, ajudar a focar numa estratégia comercial, montar essa máquina de venda recorrente, ajudar na máquina de pessoas com nosso network, contratação…  

Eu vi um dado esses dias que me brilhou os olhos por um lado e me preocupou por outro. Rodaram uma pesquisa na turma de medicina da USP (Universidade de São Paulo), e 60% dos estudantes não querem fazer residência, querem empreender. Então eu fico feliz como venture capitalist, que eu vou ter um monte de founder aí para investir, mas, por outro, eu fico preocupada com assistência, porque vai faltar clínico para atender a gente. Mas aí, tudo bem, a gente resolve de outro jeito colocando, talvez mais tecnologia para o cara ser mais produtivo.  

 

Jaime Frenkel:  

Tem aí os algoritmos de IA [Inteligência Artificial] que resolvem [risos].     

 

Nádia Armelin: 

E é bom falar de IA, porque também vale um pouquinho de contribuição. Então, assim, ajudando na máquina de pessoas e ajudando na máquina do produto. Eu estou lendo um livro superbacana, o Inspired, do Marty Cagan, e o produto é muito soberano. Óbvio, tem que ter gente. Assim, depois que você tem um time maravilhoso, se o produto não for bom, não tem muito jeito. Então, com o ecossistema que a gente tem hoje, de sócios-investidores que têm ali hospitais, medicina diagnóstica, clínica, a gente consegue pegar esse produto, estressar e testar bem numa relação sempre de ganha-ganha. Eu brinco com os founders, porque se o produto não for bom aqui, ninguém vai querer testar. A gente conseguiu construir isso aqui dentro do fundo.  

E, por exemplo, a nossa diligência é um pouco mais lenta. Eu falo isso com os founders quando a gente começa a conversar sobre nosso processo. Não consigo em 15 dias te dar uma resposta sobre investimento. A gente demora de dois a três meses. O não é rápido, mas o sim é um pouco mais demorado. Porque a gente faz diligência, a gente testa produto, a gente faz background check exatamente porque vou fazer 15 investimentos e não cem. Então, a gente escolheu essa opção. Talvez, daqui um ano, se a gente for fazer o podcast de novo, posso até dizer “ih, Jaime, errei naquela estratégia, devia ter feito spray and pray“. Mas, por enquanto, como a gente é um fundo setorial e a gente acredita em entender um pouco mais do setor, a gente está indo mais por essa estratégia de poucos investimentos e bastante esforço para ajudar a turma.  

 
Jaime Frenkel:  

Muito legal, Nádia, só fazer um paralelo. Pelo que você está me contando, só para o pessoal que está assistindo a gente entender. Tem uma diferença entre Venture Capital [VC] e o Corporate Venture Capital [CVC], a diferença mais básica é a seguinte: o CVC é quando grandes empresas estruturam fundos para investirem em startups, em empresas nascentes. Na prática, tem uma diferença muito forte que, no CVC, a empresa que está investindo vai agregar valor à startup não só com o dinheiro dela, mas também permitindo que aquela empresa possa acessar suas alavancas. E aí pode ser canal de venda, pode ser operação, a própria empresa pode comprar serviço da startup. Mas a lógica é a seguinte: só dessa startup ter acesso aos canais, aos ativos da grande empresa, o valor gerado já sobe muito. Pelo que você está me contando, é que vocês montaram um VC mas por trás desse fundo tem uma comunidade de pessoas, de empreendedores, médicos, tem muita alavanca no fundo de VC de vocês que dá para utilizar. No fundo, é uma tese que não é só de olhar para o mercado e ver que tem a oportunidade ali dentro. Mas de olhar – vou até chamar de comunidade, ta Nádia, de olhar para essa comunidade de parceiros conjuntos fazendo isso acontecer. 

E, indo para a próxima pergunta – acho que nesta o Davi pode dar a visão dele. Quando você fala de um fundo de investimento, você investe em cima de teses de futuro. Nádia, o que você acredita que vai ser o futuro da indústria? Olhando para essas tecnologias que estão surgindo – a gente citou aqui inteligência artificial, mas é só a pontinha do iceberg isso, qual é a sua visão de futuro para o setor de healthtech? Do setor de health, e como o tech vai transformar esse setor? 

 
Nádia Armelin: 

A gente fez até um desenho que a gente gosta de ficar olhando de vez em quando. Pegamos o “Quê?”, o “Como?” e o “Por quê?”, e eu gosto de começar pelo ”Quê?”. Então, quando a gente olha em saúde, o que é o ”Quê?” para mim? Quais são os problemas para serem resolvidos? Você tem uma ineficiência gigante no setor, então 30% dos gastos de saúde, hoje, são desperdício no Brasil. Uma inflação médica que é absurda, é uma cadeia muito desalinhada onde todo mundo fala um monte de sopa de letrinhas – vou tentar citar algumas que acho que valem a pena. O famoso fee for service, em que você é pago por um serviço; você não é alinhado ao que a gente chama ali de outcome, do desfecho final no paciente. Então, você é medido pelo tempo que você se dedicou e não pela cura que você trouxe, por ter tirado aquele cara do hospital. 

Tem um monte de problema na saúde. E acho que tem o ”Por quê?” dessa história. Por que a gente está em saúde? Por que o médico se forma médico? Por que as pessoas querem uma saúde melhor? Então, primeiro, você quer que as pessoas vivam mais e melhor. Depois, você quer uma igualdade maior no tratamento. A assimetria de tratamento, não sei se você tem esse número, mas no Brasil 3/4 da população está no SUS – fora aí da saúde suplementar. Só que esse é o número geral e a média é sempre ruim, né. Você pega Estados no Brasil, o Maranhão, por exemplo – 5% da população do Maranhã tem acesso a planos de saúde. Então você tem tanta assimetria de tratamento, de acesso à saúde, de informação que, para mim, é o grande ”Por quê?” desse negócio. De levar mais prevenção, mais acesso para essas pessoas.  

E aí a gente vai no ”Como?”, que para mim é a tecnologia, é o grande enabler desse negócio. A primeira coisa que me vem à cabeça quando a gente fala de tecnologias promissoras, ou em que eu acredito, é o virtual care. É um negócio que, hoje, se transformou em realidade. Antes da pandemia era um negócio questionado, que tinha uma preocupação de perder qualidade, não ter um bom assessment do paciente no momento que você fazia uma telemedicina. E aí a pandemia veio e mostrou, na verdade, números diferentes. Mostrou como você consegue desocupar o pronto-atendimento porque você faz uma tele consulta e você entende que o cara não precisava estar num PS, num PA. Então, assim, virtual care, para mim, é um negócio que veio para ficar. To nem falando de tecnologia para frente, é em todos os sentidos, desde uma consulta até exames.  

Quando você falou de IA, eu gosto muito de IA, mas a gente tem também que colocar nas caixinhas. Inteligência artificial para ajudar o médico na tomada de decisão, então assim, evitar o erro, fazer aquele doble check, é um negócio que eu acredito e a gente tem olhado muito aqui no fundo, tá? Inteligência artificial como um grande suportador da decisão médica, na prescrição, na consulta, no diagnóstico. Acho que device – quando a gente olha pro Apple Watch, isso aqui tem mais dados da minha saúde do que qualquer prontuário meu. Então, assim, essa integração com os devices ou qualquer wearable que a gente possa ter acesso, vai ser uma tomada de dado, um ponto de dado, de real time e ajuda muito na decisão. Então, quanto mais a gente conseguir conectar esses wearables com os tomadores de decisão de saúde. Depois, em algum momento também, e hoje acontece com os algoritmos, muito bom.  

Tem outra palavra que todo mundo fala, mas a gente não tem muita noção da distância que a gente está dela, não sei se você conhece esse termo que chama interoperabilidade em saúde, que é sobre os dados transitarem. Eu, como engenheira, tenho um Excel do meu primeiro exame – eu falei que era hipocondríaca no começo, né? Eu fui fazer meu primeiro exame – mas depois de formada, ta? Não era no colégio, não, porque senão ia ser muito louca [risos]! Fui fazer lá o meu primeiro exame de saúde, lembro que era no Fleury até, e aí fiz meu Excel. Então, eu tenho todos os meus exames de saúde hoje planilhados. Que isso aí, obviamente, devia estar no meu prontuário. E sendo um prontuário meu, deveria circular de laboratório para laboratório, de médico para médico, deveria ser um wallet meu, mas a gente está distante disso no Brasil. Este ano passou uma lei nos Estados Unidos obrigando a interoperabilidade. E, no Brasil, a gente tem uma questão de sistemas que não se conversam. A gente tem também os players que têm que se sentar e quererem dividir esses dados, o que também é um super issue. A gente pode depois sentar e comentar alguns dados… mas eu acho que, assim, na hora que essas coisas destravarem, vai ser o resultado em saúde. Vai ser na veia o resultado ali, do desfecho clínico, né, e do custo – que hoje é insustentável, totalmente insustentável a inflação médica.  

Então, assim, isso eu estou comentando do que a gente brinca aqui que é o mato alto da saúde, ta? No fundo, assim, a gente no fundo a gente não olha life science e desenvolvimento de fármaco. Então, assim, não estou olhando lá… você conhece esse negócio de genômica e epigenômica? Já ouviu falar?  Então, a gente não investe nisso. Quem estiver ouvindo aí, founders, a gente ainda não investe nisso. Talvez em outro fundo. A genômica é o retrato do negócio, lá do nosso código genético, dos nossos genes. E aí descobri que tem uma coisa chamada epigenômica, que é a cinética. Então, assim, essa galera não fica estática, parada. Fica pulando, tem um monte de coisa, a aceleração que está tendo nesses estudos aí de life science é incrível!  

Então, assim, tem muita coisa acontecendo. Acho que tecnologia não é um fim, mas um meio. Hoje a tecnologia está mais disponível e acessível. O grande entrave não é a tecnologia. Outra coisa que melhorou muito, Jaime, o regulatório. A pandemia fez um favor de abrir a cabeça dos agentes regulatórios e a gente está vendo passos largos em regulação. Tem que ser regulado. Acho que saúde tem que ser regulado. A gente vê um avanço e bom senso bacana, principalmente no ambiente de inovação e de startup. Estamos no caminho. O outro lado da equação é ferramenta, regulação e gente. Nunca vi. O Brasil está com uma qualidade de founder incrível. Eu acho que esse ambiente que se criou em saúde, de as pessoas quererem empreender em saúde com tecnologia disponível, a gente vai ver muita coisa legal para frente. Não sei se o Davi concorda. Estou muito otimista? Agora estou trabalhando com venture capital… já era otimista, agora então! 

 

Davi Almeida: 

Por definição otimista. Tenho uma visão parecida para algumas coisas. Algumas um pouquinho diferente. Uma coisa legal que você trouxe na primeira parte da sua fala, da primeira parte do papo, muita gente formando agora em medicina não está querendo, de fato, atuar na assistência e sim trabalhar com startup, novos negócios. Tem uma coisa que o setor de saúde está vivendo, outra coisa que você comentou que achei legal: de 2015 pra cá abriu a maior quantidade de empresas de healthtech aqui no Brasil. O setor de saúde está vivendo um momento no qual ele é muito futurista e muito rudimentar ao mesmo tempo, principalmente aqui no Brasil. Na hora que você olha para onde o setor pode ir e para onde os investimentos estão se direcionando, para onde as startups estão aparecendo, é tudo muito futurista. Vai mudar a realidade da forma como é prestado o serviço de saúde no Brasil e no mundo. Existe o outro lado, que não. No Brasil, seja em saúde pública, seja em saúde privada o dia a dia da prestação de serviço ainda é muito complicado, rudimentar. Ainda é muito papel. Os diagnósticos ainda são muito básicos. Hoje ainda tem um conflito muito grande entre esses dois mundos e para onde eles vão. Acho que a gente está acelerando muito desse mundo rudimentar para o tecnológico e futurista, mas acho que ainda tem um longo caminho pela frente para isso acontecer. Alguns movimentos que estão acelerando e ajudando muito isso aqui é a coisa da consolidação do setor, que está muito forte. A consolidação obriga muito a profissionalização. Você vê Hapvida, você vê Dasa. Rede D’or.   

Ao prestar serviço nessa escala para o país inteiro, numa quantidade de catálogo de prestação de serviço muito maior, você vai vendo cada vez mais uma necessidade de você sair dessa questão mais rudimentar. E falar “não, a gente tem que padronizar a prestação de serviço, trazer as melhores tecnologias porque a concorrência está aqui do lado e está agressiva. Se não for eu, automaticamente vai para o outro”. A gente viu um caso recente, não dá para dizer que tem a ver com tecnologia, mas a gente viu um movimento muito forte com essa coisa que aconteceu na Prevent Senior com a coisa da Covid. Rapidinho os concorrentes começaram – se a Prevent Senior está perdendo espaço, é pra lá que eu vou. Tem uma profissionalização acelerada por conta disso.  

Outro foi o que a Nádia falou, a Covid mudou o setor de saúde, para onde as coisas vão acontecer. A Conexa é um exemplo, mas absolutamente em todos os lados você vê uma mudança expressiva nisso. O próprio SUS com o Conecte SUS, com certificado digital da vacina para o Brasil inteiro. De maneira geral, existe uma aceleração por conta do contexto que a gente está vivendo. O lado rudimentar sempre pesa. Eu conversei com algumas lideranças de saúde, nomes grandes do mercado que enxergam que isso foi só para a Covid, que daqui a pouco a telemedicina não vai mais continuar nessa velocidade. Tem um lado rudimentar tentando o tempo inteiro puxar para trás.  

Esse avanço que teve em regulação que a Nádia comentou, foi muito a contragosto, porque as principais referências de regulação no Brasil – do ponto de vista de órgãos de classe, principalmente, tinham uma resistência muito grande. Como não tem um profissional dessa natureza na ponta próximo ao paciente prestando aquele serviço, o tempo inteiro vai ser esse conflito entre a visão histórica rudimentar e um pouquinho dessa questão futurista. E aí, olhando para onde vão as tendências, uma coisa que eu achei bem legal é que, ao a gente falar de prestação de serviço de saúde, as pessoas automaticamente pensam no paciente, mas tem uma gama de outros clientes para futuros founders para onde vocês podem olhar: médico, todo time assistencial como um todo. Em vários casos, eles são carentes de ferramentas para prestar mais adequadamente o serviço.  

A Nádia falou do Jaleko, mas tem várias outras que vocês vão pegando. O Memed – várias ferramentas criadas para melhorar a prestação de serviço do médico, melhorar a gestão da clínica ou para ele saber exatamente a quantidade de determinado medicamento que ele tem que prescrever. São várias novas soluções que vão bem nesse sentido. Tem um outro que aparece menos, mas que tem um espaço muito grande: como é que você enquanto nova startup de tecnologia presta serviço para essas gigantes que estão aparecendo? Para uma Dasa, para uma rede D’or? Como você pluga na prestação de serviço deles e você leva para outro patamar? Em algum momento pode ter até um caminho do ser comprado, eu já ouvi bastante dessa. Se você se sentar na mesa com alguma dessas empresas tem grandes chances de acabar sendo comprado. É o ritmo deles hoje em dia: jantou com eles, já era! Vai ser comprado! Tem um pouco dessa coisa de você prestar serviço e trazer soluções, novas tecnologias para essas grandes.  

Esses três ambientes: trazer novos serviços ou montar uma startup voltada para o paciente, mas também para o profissional de saúde, mas também para o grande. Tem espaço e oportunidade em todos esses casos. Eu fecho dizendo que eu compartilho bastante do otimismo da Nádia. Quem for trabalhar nesse setor vai esbarrar com muita gente puxando para trás, porque tem um pouco desse histórico. Medalhões, pessoas antigas, puxando um pouco, mas, ao mesmo tempo, eu compartilho desse otimismo de que a tecnologia está mudando muita coisa e o ambiente cultural está mudando muita coisa. A forma como as pessoas estão se relacionando com o serviço de saúde está mudando muita coisa e, para mim, é a hora certa para estar dentro desse setor.  

 

Jaime Frenkel:  

Pegando um pouco da visão de vocês – pelo menos a minha impressão, não tenho nem metade da experiência que vocês têm em relação ao setor, mas é um setor que era praticamente artesanal. Cuidar da saúde das pessoas tem toda a parte industrializada, dos fármacos, mas, tirando essa parte, é um setor eminentemente artesanal. E, agora, chega muito a tecnologia para levar para outro patamar. Isso explica um pouco. Quando você tem uma organização muito artesanal, como um hospital, até a forma de gestão e o mindset das pessoas acabam remetendo para o artesanal mesmo, como uma gestão mais tradicional. Quando a gente fala de trazer o mundo digital é quase como se fosse uma oportunidade de queimar algumas etapas ali. Antes de definir procedimento, organizar gestão de uma série de discussões, traz uma gestão mais digital, mas ágil com essa cara que a gente tem enxergado, por exemplo, no mundo das fintechs. Faz sentido essa queima de etapas?  

 

Nádia Armelin: 

Acho que você fez uma analogia boa. A saúde sempre foi muito fronteira da tecnologia quando a gente olha para os equipamentos, por exemplo. Equipamentos de imagem, de tratamento. Sempre foi um negócio em que existia muita tecnologia embarcada, mas o mindset do gestor não era digital. É esse ponto que o Davi explorou. Seja por peer to peer pressure ou necessidade, a gente tem visto uma aceleração. No mínimo, uma vontade de entender melhor. Eu vi pelo apetite no fundo. A turma querendo investir ou estar perto das startups. Acho que isso vai andar a passos largos.  

O Davi tocou num ponto que acho importante para a turma que estiver a fim de empreender. Acho que a gente vai converter um monte de gente para empreender aqui hoje. Existe um negócio que chama profit pool, onde está o dinheiro em um determinado mercado. No Brasil, às vezes eu pego muito founder falando “vou ser a Livongo da América Latina”. Superbacana, mas a gente tem que abrir alguns parênteses primeiro. O brasileiro, a gente é um país pobre. Quem paga pela saúde no Brasil é o SUS, é o governo. Dinheiro de tributos, através do SUS, e as empresas empregadoras através das operadoras. O dinheiro da saúde está nas operadoras, nos hospitais e na medicina diagnóstica. Você abrir um negócio e ser um founder de uma startup que vende pro B2B, business to business, a sua chance de conseguir escalar e vender e monetizar é muito maior. Não estou falando que business to consumer não é um negócio legal, acho superlegal, admiro quem faça, a gente tem olhado algumas teses. Posso comentar um pouco aqui. Mas tem que ter um caminho de aquisição de clientes mais equacionado, porque você tem que entender qual é o porte de pessoas disponíveis para pagar a saúde no Brasil. O quanto você tem que pagar por tudo. Tem que pagar para viver no Brasil, pagar por saúde. Eu vou para o SUS, não tenho dinheiro para pagar um programa particular.  

Achei superimportante, Davi, você ter falado isso. E aí Jaime, nessa linha, onde é que o digital entra? O digital entra para melhorar a gestão dos hospitais, clínicas, medicina diagnóstica, trazer mais agilidade, trazer melhor dados para a tomada de decisão. Por exemplo, você pega um centro cirúrgico de hospital, é a maior fonte de receita de um hospital. Na hora que você coloca a tecnologia ali para te ajudar a tomar decisão de gestão. Entender onde estão os gargalos, por exemplo, como gira mais o leito, como consegue fazer o seu scheduling de cirurgias; você está ajudando pra caramba em eficiência, em receita, ou numa operadora que você vai ajudar a turma a entender os procedimentos que precisam ser dosados ou não dosados. Tem muita coisa que você pode ajudar e não é a tecnologia do equipamento, é a tecnologia de um software, de um algoritmo que vai ajudar na tomada de decisão. É bastante coisa aparecendo nesse sentido da digitalização da tomada de decisão em saúde.  

 

Jaime Frenkel:  

Nádia, tendo em vista todo esse contexto, você quer compartilhar com a gente um pouco quais são as teses que vocês têm, que tipo de startups vocês estão procurando, apostando?  

 

Nádia Armelin: 

A gente constituiu em julho e já fez um primeiro investimento. Esse primeiro investimento foi numa empresa lá de Jaraguá do Sul [SC] que chama UpFlux. É uma empresa de process mining que é exatamente nessa tese de você usar essa tecnologia – que se chama process mining, na qual você pega um algoritmo e pega o log dos grandes sistemas de gestão, hospitais, clínicas e consegue entender onde estão os grandes gargalos e as grandes oportunidades de ganhos, e você digere isso de uma forma muito palatável para o tomador de decisão. Seja porque ele vai enxergar mais rápido, seja porque ele vai conseguir fazer uma ação mais rápida. Foi na vertical que a gente chama de gestão digital, a gente fez esse primeiro investimento, foi um series A que a gente foi líder da rodada. E também teve um fundo, que a gente gosta bastante, que co-investiu com a gente que é superespecialista em SAS [software as a servisse], que é a maneira de vender o produto deles. Não posso falar ainda. Se fosse daqui um mês o podcast, eu poderia anunciar o segundo investimento do fundo, mas a gente vai investir numa empresa que está digitalizado essa jornada da saúde ocupacional. Acho que é um negócio super antigo, cheio de fricção, agrega pouco valor para o RH das empresas e tem chance de fazer esse negócio muito melhor. A gente vai fazer esse investimento.  

E aí, então, a gente tem olhado – falei um pouco de profit pool, a gente tem olhado para negócios mais B2B, nas grandes dores da saúde. Então, gestão administrativa, gestão clínica, doenças crônicas para gente também. Eu falo muito para o Davi, tenho tentado convencer o Davi a empreender em doenças crônicas, porque acho que vai ter founder-market fit. Em doenças crônicas é uma conta gigante. Você pega um diabético tipo 2 e reduz um ponto na hemoglobina glicada dele. Além da qualidade de vida, você diminui 30% o gasto com saúde desse diabético. Então tem muito dinheiro na mesa para todo mundo: para a operadora, para o paciente e qualidade de vida. Doenças crônicas é um negócio que a gente tem olhado bastante, com o cuidado dessas ressalvas do que a gente acha que pode dar certo no Brasil.  

O Brasil não é Estados Unidos, o modelo out of pocket eu tendo a ser um pouco mais cética. Na hora que coloca no contexto de uma operadora, ou mesmo nas empresas, a gente gosta mais da tese. Uma tese que a gente fala de encontrar grandes nichos, por exemplo, saúde masculina. Pegar a jornada do homem dentro da saúde dele. Um homem de 20 a 40 anos tem questões ali – de calvície, massa muscular, mental health, disfunção erétil – e coloca esse cara numa jornada de fazer o diagnóstico, prescrever e vender o produto. Esse modelo lá de fora que a gente acha que podem ser importados para o Brasil mudando a questão da monetização. O mesmo vale para a saúde feminina. Você fazer essa integração da jornada. Engraçado, eu tenho 40 anos de idade e nunca tinha me caído a ficha de como a jornada da saúde feminina é fragmentada. Você vai lá na primeira menstruação, você vai no ginecologista da sua mãe, aquela coisa horrorosa. Fica meio sem graça de falar. Até quem deu à luz, seu obstetra, você vai falar da sua primeira menstruação. Depois quer engravidar, é outra jornada. Se tem problemas de fertilidade, é superdoído o negócio. Você tratar isso de maneira mais humanizada e integrada, a gente gosta muito dessa tese também. Tem bastante founders que a gente tem acompanhado a trajetória e a gente está com o apetite na hora, no momento certo de fazer um investimento.  

Mental health é um big issue. Tive a oportunidade de falar com a Joanna, da EloGroup. Como esse negócio sempre existiu, a pandemia escancarou e as empresas agora perceberam que o absenteísmo não vem só da saúde física, a saúde mental é um big issue. E como a gente ajuda essas empresas mais ágeis com essa combinação de tecnologia com lado humano da história? A gente consegue trazer melhores serviços e produtos para mental health. Então, acho que tem tanta coisa nova em saúde mental. Não sou especialista, mas você pega uma TCC [Terapia Cognitiva Comportamental] e coloca isso junto com tecnologia, com plataforma – mas sim, tendo um profissional do lado, acho que você entrega muito valor para o paciente. Onde existe grande problema, existe grande dor e é um mercado pouco servido. A gente viu acontecer isso em outros setores. Todo mundo pergunta: as healthtechs são as novas fintechs? Eu não acho que são. A gente pode abrir um capítulo disso. Eu acho que tem um tempo para vender em saúde que é muito maior. Saúde tem desafios de protocolos mesmo, de uma Ciência um pouco mais humana que fintech. Mas, por outro lado, eu acho que tem um lado de fintech, porque você tem dores gigantes com spreads gigantes em todos os sentidos, desalinhamento na cadeia. Então, acho que tem chance de vir bastante coisa boa nessas verticais que eu dei uma comentada com vocês.   

 

Jaime Frenkel:  

Muito bom Nádia. Davi, se você fosse investir. Você tem alguma tese na sua cabeça e de investimento de healthtech?   

 

Davi Almeida:  

Eu tenho duas. Já até conversei com a Nádia a respeito. Ambas tratam de coisas crônicas, com certeza, não tenho dúvidas. Algumas já estão sendo bastante exploradas no Brasil. Acho que as estruturas de incentivo comportamental ainda não estão arredondadas. Que a gente tem no Brasil, no momento, todo mundo já ouviu falar de Klivo, Glic. Tem várias opções na mesa, mas a forma como eles estão trabalhando a parte de engajamento de comportamento não está 100% redonda. Por exemplo, a Wellth lá fora ela entrou com uma estrutura de comportamento bem mais interessante na qual você cria evidências sobre a sua aderência em relação ao teu tratamento – seja em consulta, seja em procedimento e medicamentos – e você recebe bonificações financeiras diretas. Não sei se a Klivo já adotou mais recentemente isso, mas redução em valor de plano de saúde, descontos em consultas ou descontos em medicamentos. Tem uma estrutura de incentivo mais clara. Acho que, principalmente para o brasileiro, faz muita diferença.  

Lógico que depende da doença. Quando você pega, por exemplo, toda a parte de diabetes, a relação com a doença é mais íntima. Hipertensão, não é. O engajamento do paciente é um pouco diferente. Você vai ter que trabalhar com dinâmicas de incentivo diferentes. A Wellth com certeza é uma delas. A outra que já começou e já tem até uma tropicalização é a Pillpack. Como você torna o consumo de medicamentos mais facilitado? Como você organiza um paciente que vai ter que tomar cinco, seis, 12 remédios ao longo do dia em horas, dosagens, condições específicas? Como você organiza isso, principalmente para o idoso? Não à toa a Amazon comprou a PillPack lá fora e, aqui no Brasil, já tem uma tese. Esqueci o nome agora… Safepill.   

 

Jaime Frenkel:  

Nádia, para terminar, para quem quer entrar nesse setor – tanto de venture capital quanto no setor de healthtech, o que você recomenda de estudos, leitura, Ted Talk? O que você recomendaria para quem quer estudar e se aprofundar nisso?   

 

Nádia Armelin: 

Jaime, mais do que recomendar, eu vou falar algumas coisas que eu estou lendo. O que mudou na minha vida. Acho que, hoje, a gente tem tanto acesso a conteúdo. Não sei vocês, mas chega uma hora a cabeça explode! O que mudou minha vida? Eu consegui colocar uma rotina de estudo. Eu acordo cedo, estudo por uma hora. Porque eu deixava para ler no final de semana, no final do dia. Estava supercansada e essas leituras técnicas são leituras de estudo. Uma dica que eu dou: é igual estudar para o vestibular, para o mestrado. Acha um momento na agenda diária para estudar. Para mim, funciona de manhã. Eu acordo e já sento lá e começo a estudar. E, aí, o estudar hoje mudou, a gente sai ali daquele mundo que era só livro para o mundo… agora, tenho escutado muito podcast. Até legal a gente estar gravando, acho que podcast é um negócio que você consegue – se você está dirigindo, você escuta, se você não está podendo sublinhar alguma coisa ali, você está escutando – acho super flexível. Adoro o podcast da a16z, acho que eles fazem um trabalho fenomenal! VC, Masters of Scale, eu gosto muito. Astella, no Brasil fez um trabalho superlegal, já ouvi todos os podcasts dos founders da Astella. Agora eles estão entrando numa nova sessão.  

Newsletter também tem que fazer curadoria, senão lota o e-mail e você não vê nenhuma, gosto muito! Em saúde, leio bastante coisa da Future Health. Aqui no Brasil, a Distrito tem feito um trabalho muito legal também. Os reports da Distrito eu dou uma olhada, CB Insights é um negócio que todo mundo tem que ver.  

E, de livro, no momento eu estou lendo o Inspired – que falei para vocês, que é de produto. Eu acho produto, assim, é infalível. Depois que você faz a máquina de gente, você tem gente muito boa, você tem que azeitar essa máquina de produto, tem que fazer produto que as pessoas amam. As pessoas até dão um trust para você, mas depois elas cansam e vão embora. Acho que o livro de cabeceira, não é um livro de leitura, mas de vez enquanto de consultar, é o Principles, do Ray Dalio. É uma escola de vida pegar a parte de vida dele, depois a parte de business. É impressionante como muda! Eu li o livro quando eu estava no negócio de cosméticos e li com um olho, hoje, em VC, eu já olho com outro olho. E, de vez em quando, eu volto ali, ele todo riscado, eu volto pra pegar algum insight. Então é um negócio que funciona bem pra mim. Mas, assim, bottom line, tem que estudar muito, conversas são super-ricas, mas na vida a gente tem que ser um estudante contínuo. Essa é a minha percepção.   

 

Jaime Frenkel:  

Muito bom, Nádia. Foi um prazer enorme estar aqui com você! Davi, obrigado por participar, foi um prazer enorme poder ter você aqui com a gente nessa conversa. E, pessoal, espero que vocês tenham gostado tanto da conversa quanto eu! Até a próxima! 

 

Nádia Armelin: 

Obrigada, tchau, tchau.   

 

Davi Almeida:  

Obrigado pelo convite, pessoal, um abraço!   

 

Jaime Frenkel:  

Pessoal, a gente está aqui encaminhando para o final dessa conversa e, mais uma vez, a gente consegue ver como inovação consegue transformar um setor. Em especial, o setor de saúde, tão importante para gente. E que, pela natureza do que é cuidar da saúde humana, sempre foi um setor com uma característica muito artesanal – a gente falou bastante sobre isso, e que está migrando muito rápido para o setor cada vez mais digital. Eu mal posso esperar para ver como vai ser a relação da gente enquanto consumidores e pacientes com a nossa saúde, na medida que essa transformação acontecer.  

Lembrando que a EloGroup é uma empresa que tem um propósito de ajudar as organizações a trabalhar e constituir suas estratégias de inovação, inclusive a gente tem discutido vários assuntos com várias empresas dentro do setor de saúde. Quem quiser depois saber mais sobre isso, pode conversar comigo, com o Davi. A gente pode trocar um pouco mais de experiência e de como a gente vem ajudando empresas de vários setores a desenhar suas estratégias de inovação e fazer elas acontecerem na prática.  

E fiquem atentos às redes sociais da EloGroup, ao nosso Instagram, ao nosso LinkedIn para novos desdobramentos desse episódio.  

Muito obrigado e até a próxima, pessoal! 

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