Innovation Lab T3E5 – Impacto social com blockchain

A blockchain viabilizou uma série de inovações na última década. Das criptomoedas aos contratos inteligentes que deram origem aos mercados de NFTs e das finanças descentralizadas (DeFi). Mas há também empreendedores que utilizam a blockchain para gerar impacto social.

No quinto episódio da terceira temporada do Innovation Lab, Jaime Frenkel tem como convidada Taynaah Reis, criadora da Moeda Semente, projeto que utiliza as inovações da blockchain para levar acesso a capital de giro a pequenos produtores rurais, com foco em lideranças femininas. Como convidado, também participa da conversa Vinicius Brasil, gerente da EloGroup especializado em inovação.

Transcrição do episódio

Jaime Frenkel: 

Innovation Lab, o podcast de inovação da EloGroup. 

Olá, sejam muito bem-vindos ao Innovation Lab, o podcast de inovação da EloGroup que traz executivos e empreendedores que estão fazendo a diferença no Brasil para compartilharem suas trajetórias, ideias e estratégias de como fazer a inovação acontecer na prática. Eu sou Jaime Frenkel, diretor-executivo de inovação da EloGroup e, no episódio de hoje, vamos falar com a Taynaah Reis.  

A Taynaah é a criadora da Moeda Semente, um projeto que utiliza as inovações da blockchain para gerar impacto social. Ela é autodidata, aprendeu software sozinha e depois se certificou em inteligência artificial pelo MIT e também em cibersegurança e inovação disruptiva pela Harvard Business School. Ela se inspirou nos desafios e dores identificados a partir da própria experiência em cooperativa de agricultores, aldeias e quilombos para inovar na prática e gerar valor.  

O projeto Moeda Semente busca solucionar problemas como a dificuldade dessas comunidades em obter capital de giro, equipamentos e, principalmente, acesso a crédito e capital estrangeiro. Um importante foco da Moeda Semente é o trabalho com grupos liderados por mulheres. A Moeda Semente também realizou uma oferta inicial de criptoativos que levantou mais de 20 milhões de dólares, o que viabilizou recursos para todo esse projeto. Hoje, a criptomoeda nativa da iniciativa, a MDA, está listada em algumas das maiores exchanges do mundo, incluindo a Binance. 

A Taynaah vai nos falar um pouquinho sobre a Moeda Semente e sobre como é inovar na prática com blockchain dentro de um projeto de impacto social no Brasil.  

A gente tem também aqui com a gente o Vinicius Brasil, que é um dos gerentes da EloGroup com mais experiência em projetos de inovação.  

Sejam muito bem-vindos, Taynaah e Vinícius, obrigado por estar aqui! 

[Vinheta] 

 

Jaime Frenkel: 

Taynaah, eu queria começar conversando com você sobre a sua trajetória porque uma temática que é muito recorrente para gente é que a inovação, no fundo, ela vem de quem faz a inovação, do inovador. E o inovador é a sua história, é a sua trajetória. No seu caso, a inovação que você trabalha é muito bonita e ela parte também de uma trajetória muito interessante. Queria que você contasse pra gente um pouquinho, assim, da sua história, o que você já fez, e o caminho que te levou até criar a Moeda Semente. 

 

Taynaah Reis: 

Maravilha! Para mim é um prazer estar compartilhando um pouquinho da jornada e dos desafios de empreender no nosso país também, empreender com o impacto. Minha grande inspiração é o meu pai. Ele foi um dos criadores, ajudou a criar o Pronafi, que é um programa nacional de crédito para agricultura familiar até hoje. Do governo ele foi ali tentando inovar de dentro do governo, o que eu acho muito mais difícil do que privado. Eu vi os desafios, das burocracias. Numa época em que mal se falava em e-mail ele já estava automatizando várias coisas, rodava em 300 projetos Brasil afora e para lugares super remotos e já estava pensando em tecnologia, em instalar intranet. Há 20 anos era muito disruptivo você trazer inovação e você mostrar para as pessoas esse pensamento visionário. Ele estava sempre pensando 20 anos à frente, em como o Brasil poderia ser um lugar melhor. Ele sempre concentrou tudo isso nas cooperativas, no modelo cooperativista de participação, de colaboração.  

E, trazendo a inovação para isso, ele me deu meu primeiro computador com um ano de idade. Então, imagina, ele já foi… o chip da tecnologia já foi implantando. Aos 7 anos de idade fiz meu primeiro curso de ciência da computação, então você já imagina! O meu pai já me incentivou muito cedo a aprender inglês e coisas assim que foram me despertando, sempre em casa uma biblioteca fantástica e essa sede de conhecimento, de aprender. E aprender sobre mercados e tecnologia me fascinou! Aos 12 anos ele me incentivou a aprender também linguagem de programação e eu fui, na curiosidade, desenvolvendo sites, banners, automatizando o que precisasse pros projetos sociais. As 16, abri minha primeira empresa, fiz um trabalho grande pro governo, que foi a rede Brasil Rural. A gente conectou, através de uma rede social, agricultores da agricultura familiar junto com os editais do governo. E eu sempre vendo, assim, muita burocracia para acessar recursos do governo, principalmente pelas mulheres.  

As mulheres que não tinham algum tipo de garantia para o crédito, ou não tinham histórico de crédito algum, porque sempre a conta esteve em nome do marido, a casinha, o terreno tava em nome do marido. Então para acessar o crédito, mesmo de programas governamentais, era muito custoso ou demorava muito – de seis meses a um ano. E muitas vezes meu pai saía do Ministério da Agricultura ia lá direto nas cooperativas e ele sempre me levou. E eu cresci com os produtos da agricultura familiar. Eu via assim, um ou outro produto e falava: “pai, cadê aquele requeijão?”. E ele falava: ”Ah, não, a cooperativa faliu porque não conseguiu o capital de giro. O governo financiou as máquinas e equipamentos, mas precisava pagar o pessoal para rodar”.  

Então, ficou lá um elefante branco do negócio enquanto precisava de um outro capital e não tinha customizado. E muito do conhecimento de startups fica na cidade. Então, na parte de agricultura, agricultura familiar e cooperativas, o pessoal tem muito o apoio do governo, dos ”Esses”: SENAC Sebrae e assistência técnica e extensão rural. Não crescia com uma ânsia e desejo de mudar. Eu falo para o meu pai que um dia vou crescer e meu banco vai financiar primeiro as mulheres! A gente não vai excluir os homens, mas vai consertar um pouquinho do que está meio bugado no sistema [risos] A gente vai, vai ajudar.  

E morei fora, morei em Singapura, na Suécia, em Nova York três anos. Passei a procurar meus mentores para poder construir o que eu imaginava ser a minha universidade dos sonhos, do que eu não encontrava de conhecimento aqui no Brasil. “Ah, quero estudar Inteligência Artificial, preciso estar com a melhor pessoa”. E o pessoa Adam Cheyer, que na época ele criou o Siri, era head de Inteligência Artificial da Apple. “Ah, eu posso servir um cafezinho para você [risadas]. Posso aprender um pouquinho com você, na humildade de absorver conteúdos e sabedorias”. E aprender a como colocar a tecnologia a serviço da humanidade, né? 

Para mim, a tecnologia é só um meio. E tem tanto desafio para a gente resolver juntos, e o desafio do impacto social, da questão de gênero no nosso país. E  não só do nosso país. Depois eu vi que era a dor de muitos outros países também, de outros povos e culturas. Então tem um tempo eu me apaixonei pela tecnologia blockchain, podia trazer a transparência e a confiança que as pessoas precisavam para poder fazer um impacto. E foi isso que me aprofundei e também em segurança da informação, depois fiz um mestrado de um mestrado de environmental governance, que é a parte de governança, mudanças climáticas e risco. Essa parte de construir políticas públicas internacionais para fazer uma mudança no meio ambiente também. Então foi um pouquinho de cada coisa do que eu sou hoje e o que a Moeda faz hoje também tem um pouquinho dessa história.  

 

Jaime Frenkel:  

No fundo, a gente e as inovações que a gente consegue passar para frente é uma soma dessas várias experiências que a gente vem acumulando. É muito legal ver o seu caso, Taynaah, como é que é essas várias experiências virando uma coisa tão bonita quanto é a Moeda Semente. Agora, na sua fala me chamou muito a atenção quando você falou da importância dos mentores. E imagino que teve muita proatividade da sua parte em ir até essas pessoas, se colocar à disposição e abrir essas portas. Eu imagino que isso é uma coisa que muita gente está ouvindo a gente agora acharia muito interessante fazer e, às vezes, não têm coragem, ou não sabe por onde começar.  

Queria te perguntar, Taynaah, que dicas você dá para as pessoas que gostam de algum assunto, mas têm dificuldade de chegar até alguém mais experiente para fazer essa conexão? 

 

Taynaah Reis: 

Acredito que os mentores foram peça fundamental não só no conhecimento, em formação e entender como é a aplicação da inovação na prática, como é o dia a dia de uma empresa. E hoje eu tenho os mentores na Moeda também: o Jorge Nogueira, que é presidente da Mastercard México; e o Adit, aquele cofundador da Money 20/20. São amigos que me guiam na jornada também, porque são ciclos, o sucesso não é uma constante, assim, você tem os altos e baixos, os desafios, aquelas conversas difíceis para crescer uma empresa, funcionários e você lidar, e você ser um pouco terapeuta, psicóloga no mundo de incertezas e vem pandemia… tem muita coisa no dia a dia de empreender, você precisa ligar para alguém e falar assim: “ah, eu preciso de ajuda para resolver tal coisa”. E você ter essas pessoas e construir essas amizades com mentores ao longo dessa jornada, que vai te ajudar a criar esse network. Essa rede de suporte e  apoio é fundamental para quem quer empreender, porque tem sempre riscos e tem coisas que não saem perfeitas. E você precisa daquela ajuda [risos] e poder contar na hora… Então eu vejo assim, do que você traduziu em muita admiração, né, do que eu fui, como você falou, proativamente buscar… 

Acho que a primeira conferência que eu fui foi em 2010. O LinkedIn estava no início e eu mandei 2.000 e-mails e o pessoal, nem todo mundo aceitou, mas eu tive 186 respostas para três dias de conferência. Claro que não dava para fazer conversas presenciais, mas foi um pouco de cara de pau e coragem, né. O não a gente já tinha garantido e o sim, a gente estava correndo atrás do sim [risadas]! E procurando de forma genuína também, perguntando e pedindo apoio, pedindo conselhos. “Olha, a minha empresa está começando, eu tenho esse desafio. O que você faria no meu lugar? Se você pudesse dar um conselho para uma pessoa na época já de vinte e poucos anos?”. Nessa conversa muito sincera e muito aberta. Muitos dos desafios pelos que passei, muita coisa que é importante ter um apoio. É um lugar que, às vezes, você se sente muito sozinho, um lugar de liderança de uma empresa ou da disrupção e inovação. De estar pensando em algo, às vezes, 20 anos na frente que as pessoas não enxergam.  

Já se falava de impacto social, de blockchain, dessas coisas há muitos anos. E hoje que está assim: “ah, ESG!”. Todo mundo se preocupando com impacto. E eu digo: graças a Deus! Me economiza meio mundo de discurso. Muita gente que falava “ah, isso é pirâmide…”. E eu: “não, gente! tem milhões de outras aplicações para essa tecnologia, não é só especulação”. Aí eram discursos, eu passava numa reunião para tentar falar com alguém para fazer parceria e eram horas e horas e horas só explicando o que era blockchain. Então, hoje você abre o jornal, ouve de alguma forma, em algum lugar, lê a palavra blockchain com mais frequência do que sete anos atrás. 

 

Jaime Frenkel: 

E hoje, às vezes é com frequência até demais [risadas] 

 

Vinicius Brasil: 

[Risada] Está na moda… 

 

Taynaah Reis: 

[Risada] Eu fico é feliz, vocês não sabem o trabalho que dava explicar! 

 

Vinicius Brasil: 

Taynaah, queria explorar um aspecto da sua experiência, assim. Nos últimos anos a gente vê um um espaço, porque, no passado, a gente tinha gente querendo causar Impacto, gente querendo ajudar de alguma forma a resolver os problemas do mundo, mas, ao mesmo tempo as pessoas, as pessoas tinham que ter a sua carreira, ter o seu emprego, ter, enfim, a sua empresa. E, às vezes, o trabalho de ajudar no mundo ficava para participar de uma ONG… acho que o empreendedorismo de impacto agora consegue juntar as duas coisas. As pessoas conseguem trabalhar, ser remuneradas e construírem a sua carreira sobre algo com o qual elas podem ajudar a resolver problemas reais do mundo e cumprir um determinado propósito.  

Como você enxerga essa mudança que a gente tem da consolidação do empreendedor de impacto; as diferenças do empreendedorismo de impacto para o empreendedorismo convencional; e como você diria para as pessoas se inspirarem, aquelas que querem trabalhar com algo que cause impacto, mas que precisam cuidar da sua própria vida também. Como elas podem pensar em soluções que juntem as duas coisas?  

 

Taynaah Reis: 

Acho que a questão do empreendedorismo de impacto ainda é bastante nova, é um outro padrão de mindset, um padrão de mentalidade que se confunde muito ainda com a pura filantropia. Que a filantropia a gente tem assim no espaço de tempo está distante: “ah, eu vou fazer minha empresa, gerar capital e quando eu aposentar, aí eu vou [risada] é o giving back, vou retornar para a sociedade. E, hoje, a gente vive num sistema que talvez não dê tempo. Se a gente quiser salvar alguma coisa, se a gente quiser fazer… está no presente pensar em mudanças climáticas, nos riscos de investimentos para o meio ambiente. Não dá para começar em 2050! “Ah, em 2050 eu vou parar de beber [risada]! Como se fosse assim! Precisa ser sustentável e pensar em investimento de impacto é pensar em sustentabilidade tanto para o meio ambiente quanto para as pessoas. 

Ontem eu fui visitar, no microcrédito, a gente começou o microcrédito aqui em Brasília tem algum tempo. E as mulheres e algumas… teve uma em especial que ela pegou R$ 1 mil em crédito com a gente e ela conseguiu, em dois meses, fazer  

R$ 5 mil. Ela é artesã, ela comprou o material e conseguiu vender tudo no Natal! E estava super feliz, porque ela não conseguia nenhum tipo de crédito nos bancos tradicionais, ela tava com nome negativado. Ela encontrou o nosso programa, teve a mentoria – toda a parte de como construir um plano de negócios; como calcular seus custos, coisas simples e básicas do dia a dia do empreendedor. E ela conseguiu com aquele capital que, para mim… falei: “de R$ 1 mil você conseguir R$ 5 mil, você tem que contar essa história como inspiração!”. Então ela saiu de juros de cartão de crédito, ela só conseguia pegar esses cartões de crédito de departamento com juros absurdos. E ela conseguiu retornar.  

Quando você tem uma parte de educação, uma parte de mentoria e de apoio… a gente tem uma modalidade no crédito chamada Aval Solidário. Então ela chamou cinco amigas, elas não se conheciam ainda muito bem, elas estavam se conhecendo na rede. E ela falou: “nossa, foi tão lindo ter o aval solidário delas e o apoio delas pra eu ter o meu crédito”. Porque uma ajudou a outra. Uma a fazer bolo, indicou para o fazer bolo, que indicou para o salão de cabeleireiro; a outra que faz cabelo indicou a artesã… então elas se ajudaram naquele processo. E os investidores viram isso, que o dinheiro pode retornar. Elas pagaram o microcrédito e elas conseguiram ampliar a receita delas em cinco vezes e ajudar outras mulheres, contratar outras mulheres também – e com um crédito de R$ 1 mil. 

Então, assim, é possível! Foi provando esse modelo, de que é possível você ter o retorno financeiro, é possível você cuidar das pessoas. Elas falando assim: “ah, obrigada pelas planilhas que vocês mandaram e todo o acompanhamento”. Uma outra: “peguei o crédito há três meses a página, mas vocês me ligaram, a equipe me ligou para ver como é que estava, me apoiar. Nunca ninguém fez isso comigo!”.  

Se você pensar que você pode fazer diferente com tão pouco e construir modelos que são sustentáveis a longo prazo para não só uma outra empresa, mas também para a população. Então o investimento de impacto é a ilustração, né, foi essa dessa história. E a cada testemunho que eu ouço, me sinto mais feliz de estar fazendo o que estou fazendo que faz cada vez mais sentido.  

Eu vejo que esse DNA de investimento de impacto vem com os jovens. Os jovens já são mais abertos e para eles não faz mais sentido investir em determinadas empresas na Bolsa. Investir na Vale e na Petrobras? Quer investir na Dona Divina, na Dona Maria ou numa cooperativa? E eles dizem sim! É muito mais legal é muito melhor ver seu dinheiro se transformando nessa abundância e essa multiplicação, e você vendo as pessoas se transformar. Isso é muito mais gratificante, pelo menos para mim! E hoje eu encontro muitos jovens tanto investidores na Moeda e quem está entrando na Binance são jovens e é bonito ver isso, de querer investir com propósito e isso faz a diferença e vai fazer diferença ao longo dos anos a gente pensar sempre nessa sustentabilidade. Seja dentro de qualquer empresa ou fora, quando você vai colocar um investimento, isso reverbera. 

  

Jaime Frenkel:  

Taynaah, eu posso aproveitar a deixa aqui e te pedir para explicar para a gente um pouquinho como é que funciona a Moeda Semente?  

Porque para as pessoas que não conhecem sobre blockchain, não conhecem sobre a lógica do microfinanciamento pode parecer uma coisa muito distante. Você consegue explicar para a gente como é que funciona a rede que vocês desenvolveram: o mecanismo, os atores envolvidos e como é que eles interagem? E como é que a blockchain suporta tudo isso?  

 

Taynaah Reis: 

Sim, a Moeda funciona como… tem a parte tradicional, de uma conta digital normal. Então, você pode fazer depósitos, transações para quem faz parte dos nossos projetos. Não tem tarifa, tem descontos em taxas. Então seria um banco digital, mas com investimento de impacto. Então a gente dá essa possibilidade de indicar um portfólio, em que você pode verificar os projetos que estão em aberto. “Quero investir no projeto do café. Gostei, aí tem todas os objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS), quantos empregos aquele projeto vai gerar”. O retorno, ele é calculado sobre a venda de um determinado produto. Realiza quanto café, realiza a venda do café e uma parte da receita volta aos investidores daquele projeto. Você pode selecionar e, com alguns cliques, você consegue investir no projeto diretamente e depois acompanhar o projeto causar.  

Então a gente faz esses registros em blockchain, que é uma tecnologia que é como um livro aberto que não dá para ser apagado. E, mesmo que seja acrescentado informações, elas sempre vão ficar registradas ali. Então é uma base de dados, um registro que a gente pode ter essa confiança porque é imutável, não pode ser apagado. Então a gente registra tudo em blockchain, a gente usa uma tecnologia específica chamada hyperledger fabric, que é patrocinada pela Linux Foundation e a IBM. Então você consegue ver cada passo: desde o projeto, análise de viabilidade do negócio que foi investido; depois o plano de negócios, a customização de algumas linhas de crédito, alguns projetos recebem antecipação de recebíveis. Então tem todo uma dinâmica e os entregáveis do projeto e, ao final de cada fase do projeto, o cálculo de impacto. Então é bem transparente, você pode fazer aqui do Brasil, pode fazer um depósito, um pix, naturalmente.  

E, quem é de fora do Brasil, a gente criou uma criptomoeda, chamada MDA. Como você falou, hoje está listada nas maiores exchanges para justamente não haver esse atrito, porque é muito difícil trazer dinheiro de fora do Brasil, trazer para cá – seja da Europa, seja da Ásia, onde está a maioria dos nossos investidores hoje. Então é muito complicado, né. Mesmo que seja para um dinheiro para doação, você vai mandar um dinheiro de uma conta fora por uma conta aqui no Brasil demora até meses. Tem que estar com o contrato certinho, o banco pergunta de onde vem, e as taxas de câmbio exorbitantes, às vezes, que o banco cobra também – o banco tradicional. Então a criptomoeda a gente vê como um facilitador para quem está de fora do Brasil e quer participar, quer investir de forma direta e, com toda essa transparência, poder participar também.  

Foi essa a construção da MDA. E tudo que a gente faz dentro do ecossistema a gente utiliza uma outra moeda, que é uma moeda estável, que a gente chama de MDA BRL – é a moeda brasileira para justamente não haver esse atrito, ou dúvidas. A gente faz o câmbio imediato e mesmo quando tem um investimento feito em criptomoeda. A Dona Maria… [risadas] os investidos, elas recebem em reais, e enxergam em reais, mas – por de trás – está a tecnologia blockchain. Foi todo um design feito especificamente para atender as pessoas mais simples. A gente tem toda um gamificação por trás do aplicativo, bem simples de usar e um cartão Mastercard pré-pago. Então, a partir do momento que é recebido o investimento, elas podem sacar, transferir, fazer pix, ou utilizar imediatamente o cartão. 

 

Jaime Frenkel: 

Legal, deixa ver se eu entendi. Se hoje eu tô no Brasil e eu quero fazer um investimento em um dos projetos da Moeda Semente, como é que eu faço? Eu entro no site de vocês aí eu vou poder encontrar quais são os possíveis investimentos e eu faço um investimento para direto para o agricultor que vai estar ali na ponta e vai usar esse dinheiro para produzir o trabalho dela, ela vende aquilo e com isso ela paga o meu investimento. É isso? 

 

Taynaah Reis: 

Isso, você cria uma conta digital, como se fosse um banco digital normal. Entra no site moedaseeds.com, cria sua conta, tem uma análise prévia de documentação, faz um depósito e começa a investir. E todos os projetos têm essa parte dos relatórios periódicos que a gente manda, todos os registros de forma transparente. Mas, se vocês também quiserem ir além e não só ser um investidor. Se você quiser participar da governança dos projetos e estar mais a fundo, a gente também tem um clube de investidores de impacto.  

São pessoas maravilhosas ali que falaram: “não, a gente quer ajudar mais, como é que a gente pode?”. A gente quer montar portfólios maiores. Então se você quiser se envolver de uma forma mais na governança, nas métricas de impacto, de discutir os projetos e os modelos de projetos, a gente não tem essa possibilidade com o clube de investidores de impacto.  

 

Jaime Frenkel: 

Bacana! 

 

Vinicius Brasil: 

Inclusive, Taynaah, eu queria explorar um outro aspecto que está muito presente na sua fala, que é o empreendedorismo feminino. O estímulo e o trabalho com empreendedorismo feminino. A gente teve até a chance de conversar aqui no podcast, no passado, com a Ana Fontes, da Rede Mulher Empreendedora [RME]. E assim, eu queria ouvir um pouco de você, primeiro sobre a motivação natural para trabalhar com esse tipo de empreendedorismo e as diferenças que você vê no impacto com as mulheres.  

A gente sabe que tem uma série de programas sociais governamentais que focam nas mulheres justamente porque trazem efeitos para além do financeiro, na redução de violência doméstica, escolaridade maior… enfim, uma série de outros efeitos que a mulher como ente ali da da família propicia. Queria ouvir um pouco da sua experiência como uma empreendedora, tanto do lado de cá do balcão, quanto de impactar empreendedoras. O que isso gera para além do investimento em si?  

 

Taynaah Reis: 

Com certeza são muitos os desafios aí. E eu enfrentei na pele esses desafios. O ecossistema de startups no Brasil, do empreendedorismo, é muito fragmentado. Já começa na escola. A gente não tem um incentivo na base, ali quando é criança, a empreender. Vejo em outros países que você tem desde a educação infantil ao ensino médio. Eu, no ensino médio, saí de uma escola particular e eu não sabia nem fazer meu imposto de renda… as coisas básicas da vida que você vai enfrentar. Abrir uma empresa, fechar uma empresa – o que difere, né. Então, contabilidade, coisas básicas que eu vejo desse incentivo de grandes nomes.  

Você citou aí, uma grande mulher, a Ana Fortes. se você tem grandes inspirações – a Luiza Helena Trajano, se você tem grandes mulheres empreendendo… Quando eu cresci, eu tinha 12 anos, não tinham muitas referências. E isso cresceu, hoje a gente tem um pouco mais de acesso à informação, a linhas de crédito específicas e a programas governamentais específicos. Mas ainda enxergo tudo ainda muito fragmentado. Você tem uma mentoria, você tem um desafio, você tem uma premiação, mas, e depois daquela mentoria? Passou pelo curso, vem aqui empreender, tem lá “Introdução ao Empreendedorismo”, vai lá e faz o curso em três meses, e depois? Cadê o capital de giro? Cadê um computador para começar? Qual é a continuidade disso? É enxergar esse caminho de sucesso. 

A gente fez uma comparação, fui convidada para ser júri de um desafio de empreendedoras e eu falei assim: “nossa, queria que estes contextos de incentivar as meninas na tecnologia, como um concurso de matemática, uma olimpíada de Matemática ou de Física fosse tão valorizado no Brasil quanto é o concurso de miss” [risada]. Não é?! A miss, numa cidade do interior no Brasil, você tem uma prefeitura apoiando, tem toda uma cidade apoiando um concurso de miss… imagina essa mesma energia traduzida para um concurso de Olimpíada de Matemática para as meninas num município no interior. Se o prefeito da cidade estivesse envolvido e naquele contexto ela se sobressaísse. Então eu vejo que isso vem de criança, de você fazer essa projeção de futuro, você passar num contexto desse e você enxergar o seu futuro. Trabalhar isso nas crianças é muito importante, ter essas referências e ter esses incentivos. Hoje você tem ainda mais referência sendo construídas no meio urbano, de grandes empresas, mas é extremamente necessário construir as referências locais. Eu vejo, a cada mulher que a gente empodera, a rede dela se anima e cresce esse senso de eu posso pertencer, eu posso ser empreendedora.  

Empreendedor é uma palavra muito difícil e, às vezes, é muito distante de muitas realidades. E até empresária também! Mas quando ela se empodera e fala: “eu posso ter essa independência”. E você traz essa questão do financeiro, quando a mulher começa ter a sua própria receita e a sua própria conta, independente do marido, isso traz um senso, traz dignidade, traz muita coisa que é diferente. E, especialmente nas áreas rurais, nas áreas mais distantes da cidade a gente vê o tanto que elas dão valor, assim, e abraçam os programas de mentoria. Vão e fazem um dinheirinho e reinvestem na família, e no futuro delas também. São abertas para pensar, crescer e ajudar outras mulheres também. Então um pouco disso.  

Um pouco do que eu sofri e sofro até hoje, assim. Não vou dizer que é uma coisa que passou. Mesmo quando você vai entrando em estágios da sua empresa, né, series seed, A, para você se conectar, ter investimento tradicional… ainda são coisas desafiadoras que para um homem no meu papel seria talvez um pouco mais fácil do que eu. Às vezes eu tenho que provar muitas coisas e provar cinco vezes mais do que talvez um amigo que está fazendo coisas semelhantes no mercado. Ainda existe, eu vejo, assim, enxergo que não houve a cura ainda não! Mesmo para quando você passa de determinado estágio na vida do empreendedorismo. Às vezes eu encontro mais respostas e mentores e pessoas dispostas a me ouvir, ajudar, apoiar de N maneiras – seja investimento, ou experiência, ou guiarem caminhos mais fora do Brasil do que dentro do Brasil.  

Então eu vejo a diferença do gênero. É importante a gente investir. A gente prioriza mulheres, a gente entende que tem um bug do sistema, uma falha e de alguma forma corrigir ou atenuar para que as mulheres possam ter sua independência, sua independência financeira, possam ter acesso e oportunidades que seja em qualquer realidade ou situação.  

 

Jaime Frenkel: 

Taynaah, eu imagino que vocês tenham vários casos de impacto superlegais, super bonitos de serem contados. Você consegue compartilhar com a gente alguns casos de mulheres que receberam microfinanciamento e conseguiram mudar a realidade delas através da Moeda Semente?  

 

Taynaah Reis: 

Com certeza! Esses que eu já compartilhei são bem recentes, né, o da Flávia… a gente fez um programa em conjunto com a Fundação Assis Chateaubriand. Então tem a parte de mentoria: são três meses de cursos de empreendedorismo, de finanças, tem uma parte de saúde mental também, de mudança de mindset, de contabilidade. Coisas pequenas, coisas básicas, assim: como abrir uma MEI; como calcular os custos; como gerar mais receita; como fazer Instagram ou redes sociais para poder vender de uma forma online e mais dinâmica. Todo o processo a gente passou de pandemia, as vendas digitais foram tópicos muitos explorados. E elas passam pela mentoria, fazem o plano de negócios e já sai e a gente já fornece o crédito. Então começa com esse crédito de R$ 1 mil e aí elas vão construindo a reputação delas no crédito ali dentro.  

Muitas ou não têm o histórico de crédito, ou ao tinha conta conjunta com o marido, ou deixam de pagar uma continha de telefone e o nome ficou negativo e por isso não conseguiu acesso ao crédito, ou N determinados motivos. Elas se reúnem, a gente criou essa modalidade de Aval Solidário: são cinco mulheres que se encontram e que podem ser amigas ou não – na maioria das vezes são pessoas que se conheceram ali no curso mesmo. E a gente cria essa rede de apoio. O Aval Solidário ele é mais social e moral, mas é essa construção em um nível mais da comunidade e local, de uma apoiar a outra. E, com crédito, várias delas conseguiram fazer, aplicar o crédito de forma muito inteligente e saíram do outro lado com receita a triplicada, quintuplicada! No Natal, em vendas no Natal, então foram casos de muito sucesso!  

A gente tem alguns produtos-chave, como a cerveja de baru, nas cooperativas ao redor, perto de Formosa, em Goiás. A primeira intenção do projeto era mais ou menos R$ 60 mil e era só fazer a colheita do baru e contratar mais pessoas para colher o baru e vender de forma in natura no mercado. E a gente analisou o projeto, faz hoje na nossa metodologia o que é o a Oficina de Escuta e Fazer. Então são várias oficinas onde a gente escuta, tudo construído de forma muito participativa. E a gente pergunta: “Dona Divina, do que a senhora gosta de verdade?”. “Ah, eu gosto de cerveja!”. E a gente: “ah, então ta bom! Será que não dá para fazer a cerveja de baru?”. Aí a gente foi atrás, tenho alguns amigos cervejeiros e pedir “ajuda aí!”. A gente foi procurar uma amiga, a Bárbara, que é sommelier renomada e ela: “já dá para ajudar!”. E na construção foram todas mulheres: desde a castanha do baru, a receita, as provas e até hoje com a Cervejaria Dádiva, em São Paulo, com a Luiza, que tem a cervejaria dela há muitos anos. Então, desde o início ao fim do projeto foram mulheres!  

A primeira fase do projeto custou, mais ou menos, R$ 30,4 mil, ou seja, metade do que foi pedido de recurso. E a cerveja é um nicho, da cerveja artesanal, então deu para aumentar o custo da cerveja. O que ela venderia da castanha in natura no mercadinho seria um preço – acho que era R$ 50, mais ou menos, o quilo da castanha, e a cerveja a gente consegue vender a R$ 15 ou R$ 20 reais em alguns estabelecimentos. E vão cerca de 2 g de castanhas. Ou seja, tem uma receita grande que dá para compartilhar e crescer a partir daí. Era algo que não era acessível a elas. Fazer uma cerveja, hoje em dia, não era rocket science [risada], como a gente fala. Mas esse trabalho foi uma inovação ali para elas! Hoje essa cerveja está na sua quarta fase, a gente já rodou várias fases e vai fazendo upgrades. A primeira cerveja era uma garrafa e a gente vê o que na garrafa ficava ruim no transporte. Depois passou a ser a latinha e a gente fez toda a rastreabilidade, em blockchain também, de toda a cadeia e de todo o processo. E esse projeto ele se pagou em quatro meses, porque a cerveja foi um sucesso!  

Tinha uma expectativa de ser pago em 6 a 8 meses e foi a primeira, nosso primeiro caso de sucesso que a gente rodou do início ao fim.  

E a gente pegou esse modelo, vamos acreditar nesse modelo: de explorar novidades e trazer para os agricultores nichos de mercado onde possa agregar valor no produto para ter mais receita ainda. E fazer essa construção, a gente fazer toda essa construção. A gente fez a nossa metodologia de impacto com base nos nossos resultados e começou a construir também as linhas de crédito. Hoje, a gente tem a linha de microcrédito. Uma [outra] linha que cresceu muito na pandemia foi a antecipação de recebíveis, vários… a gente montou um marketplace – por conta da pandemia, vários agricultores não estavam conseguindo escoar sua produção. Aí a gente falou: “ah, vamos vender online!”. Aí a gente começou a fazer antecipação imediata. E eles viram assim: “nossa, a Moeda já tá botando o dinheiro na minha conta, eu já vendi e já botou o dinheiro na conta. E eu tenho aqui um contrato com o supermercado que me paga em 90 dias, será que vocês podem antecipar esse contrato?”. Eu falei assim: “claro que eu posso antecipar esse contrato!”. Fiquei, assim, indignada, como assim pagam em 90 dias? Imagina receber um salário daqui a três meses! A gente fez então essa linha de antecipação e foi um sucesso!  

A gente tem essa parte de customização dessas linhas de crédito, que é muito importante até na vida de um empreendedor – seja na cidade ou na área rural. Você ter acesso a crédito customizados para sua situação: se você está começando; se você já está mais avançado; se você já tem contratos e já está vendendo, né.  

E eles falam do diferencial da Moeda ser esse: “eu encontrei algo que eu precisava, encontrei apoio e suporte dessa customização”. De pensar nas pessoas e não só em mitigar o risco do crédito, mas pensar em cada um que está ali. E muito vem disso, o sucesso do nosso programa de microcrédito. Hoje também os defaults são menos de 1%. Hoje a gente vê que é algo que é a partir não só do crédito, mas da educação, é a mentoria – são todas essas coisas agregadas que fazem não só que o crédito seja aplicado de maneira eficiente, mas que seja transformador.  

 

Jaime Frenkel: 

O crédito é a alavanca para transformar a vida da pessoa, né? No fundo, o crédito é o que chama mais a atenção quando a gente explica, mas é todo um conjunto ali de serviços, suporte, de educação que vocês trazem. E é isso que faz a transformação!  

 

Vinicius Brasil: 

Tenho até uma curiosidade, Taynaah, mais técnica-financeira. Quando vocês criaram a Moeda Semente, vocês fizeram um ICO [Initial Coin Offering], que é lançar a moeda. O equivalente ao IPO de uma empresa. Queria entender, assim, como é que faz esse processo? De onde surgiu isso? E como é que você conseguiu viabilizar o lançamento de uma criptomoeda? Como é que é lidar com o risco envolvido com um ativo tão volátil e tão diferente do que a gente está acostumado?  

 

Taynaah Reis: 

Ah, foi também da necessidade de empreender. Na época que nós concebemos o projeto da Moeda, eu fui atrás de venture capital, de private equity, family offices… e é realmente bem difícil, nos meios tradicionais, você ter um investimento alto para fazer algo disruptivo. Então eu não encontrei nos meios tradicionais a resposta e, na época, estava iniciando o boom dos ICOs, que é essa nova modalidade de ter acesso a capital, de jovens que estavam ali já envolvidos no mundo das criptomoedas. Na época, não tinha nem um manual de como fazer [risadas], né, um ICO, que é você emitir uma quantidade determinada de moedas equivalente ao que você precisa de funding para o seu projeto. Então, a gente emitiu a quantidade que a gente considerou. Isso aqui, pelos próximos cinco anos, a gente vai poder construir todo o modelo alinhado à nossa visão de propósito. E quando você estabelece essas condições é por meio de um white paper, que é um business plan que você solta no mercado – e as pessoas que se identificam com aquilo ali, elas investem ou não. Então, tinham vários, inúmeros projetos de ICO na época, mas poucos projetos de ICO ligados a impacto. A gente construiu um modelo da Moeda e a utilização da criptomoeda seria essa que a gente entrega hoje no mercado, que é você poder comprar essa moeda de qualquer lugar e conseguir transferir qualquer tipo de outras moedas para essa moeda e conseguir, dentro da plataforma, investir com três cliques no projeto, ter esse acompanhamento e essa transparências e o retorno desse projeto.  

Nós tivemos cerca de 841 investidores, a maioria chineses, japoneses, da Ásia entre 20 e 28 anos, o que é [risada]… eu jamais esperava, do outro lado do mundo, o pessoal se interessar e investir em um projeto que iniciou no Brasil. A gente está expandindo para outros países, mas iniciou aqui, em casa. E eu perguntei, eu cheguei, depois de um ano, de curiosa, assim, eu perguntei para um de nossos investidores: “por quê? O que te motivou a investir na Moeda, um projeto diferente?”.  E ele falou assim: “olha, o que eu li lá no white paper, se você conseguir executar 1% do que estava escrito lá, a minha quarta geração vai ser beneficiada por isso”. Aí pensei “nossa, quarta geração…”. Eles têm um pensamento que é muito a longo prazo. A China faz coisas… ah, daqui a 100 anos, eles têm um plano para daqui a 150 anos, que é como eles vão educar a população para os empregos do futuro. Então eles têm muito disso.  

E pensar na sustentabilidade é isso! É transformar coisas hoje no presente que vão beneficiar as gerações. E foi muito bonito, assim, eu fiquei muito emocionada na época! Nossa, que bonito, né, a gente criar algo que realmente possa plantar sementinhas, eu falo, né. Aquela gotinha no oceano, plantar aquelas sementinhas para iniciar muito do que eu vejo, hoje, até da questão de sobreviver. O pessoal fala “ah, as mudanças climáticas, a Terra precisa do apoio…” e eu falo, gente, o planeta está aí! Ele vai sobreviver… os dinossauros vieram e foram, o ser humano é que não vai sobreviver às mudanças climáticas se a gente não pensar de forma sustentável, investir de forma sustentável.  

Ver esse movimento dos últimos anos acontecendo para grandes fundos de pensão e grandes investidores começarem a falar “ah, não vamos mais investir em combustíveis fósseis. O ESG, né. Nosso portfólio precisa ser qualificado e vamos investir em empresas que estejam pensando no social e no ambiental”. Então, ver todo esse movimento e construir tecnologias e o que for necessário para que essa transição possa ser mais acelerada. Não dá para esperar 2050, não! Se a gente não fizer nada agora… então é muito bonito, assim, eu me sinto muito feliz! É gratificante de todo dia trabalhar um pouquinho no progresso de algo que vai além, assim.  

 

Jaime Frenkel 

E Taynaah, vocês foram, no ano passado, selecionados para o programa Start Path, da Mastercard, e foi uma seleção acho que bastante acirrada foram mais de 1.500 inscritos para 6 projetos selecionados. Como é que tem sido essa parceria com a Mastercard? Como é que eles estão contribuindo com a atuação de vocês? E, acho que o mais importante, né, acho que deve estar linkado, inclusive, com plano de vocês para ter uma atuação cada vez mais internacional. Você pode contar para a gente um pouquinho sobre isso?  

 

Taynaah Reis: 

Com certeza, o Start Path veio num excelente momento de crescimento, principalmente no posicionamento do mercado. Nós fomos a primeira empresa do mundo em blockchain nesse contexto, né. Foram empresas competindo, mas a nossa foi a primeira de blockchain e cripto. E, depois da nossa, a gente abriu o caminho para o segundo programa deles envolvido com cripto. Então foi muito do que eles apostaram na gente, a parte do programa. E toda a due diligence que foi feita nas nossas empresas e tudo o que a gente conseguiu demonstrar e entregar ali junto com eles. Foi magnífico! Tenho coisas que a gente construiu durante o programa que a gente vai, vai poder soltar só a partir de março [risdas] que eu ainda não posso falar, mas são coisas, assim, sensacionais. Tanto um time de mentores quanto… o Jorge Nogueira veio através do Start Path, o presidente da MasterCard para México e a região da América Central. Ele me apoiou muito durante todo o processo. E entender como uma máquina, como uma Mastercard funciona uma empresa multinacional e ter o carimbo deles hoje na Moeda. Isso, no meio tradicional tanto no meio de pagamentos no Brasil, a posição de mercado no Brasil, quanto à posição de mercado no mundo de criptomoedas também. O pessoal, foi um choque! “Como assim?! A Moeda foi um projeto que sobreviveu ao ICO?!”. Porque, assim, dos ICOs no mercado, acho que 90% não estão mais nem aqui para contar a história! Mas a gente sobreviveu ao ciclo de mercado, aos ciclos de baixa do mercado, a uma pandemia… a gente fala: passamos o vale da morte das startups, que costumam durar três anos, no máximo, no Brasil. E construir uma parceria de sucesso e com esse reconhecimento internacional abriu muitas portas.  

Tem diversas maneiras para nós, assim, em trilhar esse caminho de crescimento, para agora começar a ser competidor no mercado, competir com outras fintechs tradicionais. Trazer esses novos modelos de ativos mais humanizados, linhas de crédito customizados e estratégias diferenciadas com NFTs, o cálculo do impacto… muita coisa que a gente tem feito neste último ano. E os frutos do que a gente está colhendo, da parceria da Mastercard, estão só no início. A Master é uma empresa que vai muito além de um simples cartão e pouca gente sabe disso. São centenas de produtos lá dentro e centenas de pessoas que têm um propósito também. A gente tem muito orgulho dessa parceria!  

 

Jaime Frenkel:  

Muito legal, Taynaah! E é muito interessante, né? Porque esse tipo de parceria mostra algumas das mudanças importantes que a gente está vendo nas lideranças das empresas e até uma mudança na forma como a gente pensa o capitalismo. Acho que muita gente que não conhece esse tipo de projeto, como o Start Path, olha para uma empresa como a Mastercard e imagina que é só uma empresa que está em busca de gerar retorno para o acionista. E, cada vez, mais é importante para essas empresas estarem em contato com o seu propósito.  

O propósito é o que engaja as pessoas que trabalham na empresa e também aquilo que engaja os clientes que vão consumir os produtos e serviços das empresas.  

É interessante como o propósito da Mastercard sempre vai estar muito ligado em confiança. Permitir a transação entre pessoas, pessoas que possam trabalhar e colaborar juntos e que se conecta ao propósito da Moeda. Lógico que, pelo que eu entendi ali da história de vocês, o foco sempre vai ser ajudar pessoas que estejam em situações de maior desafio, de maior dificuldade e se não me engano, em especial, mulheres empreendedoras no mundo do agro. É isso mesmo, Taynaah? 

 

Taynaah Reis: 

Isso! Hoje, a gente tem a conta digital tradicional, tem a parte de criptomoedas e NFTs e os investimentos de impacto. A nossa dedicação dos investimentos de impacto é para pessoas em situações de maior desafio, mas a conta é para todo mundo! Eu vejo, principalmente, para os jovens que estão iniciando e procurando investimentos com propósito, é a nossa conta digital. Vejo também essa geração, principalmente a geração Z, encantada com essas novas modalidades que a gente sempre lança, desses ativos mais humanizados e customizados. O cálculo da pegada de carbono…  

A geração que está vindo está muito mais antenada nessas questões e procurando utilizar algo – não só ter ali o cashback das contas, mas ter também o cashback do impacto. Então temos um foco grande nessa população, que é jovem. E os jovens adultos, como nós [risadas], que também estamos procurando perpetuar a abundância. Quando você investe algo que você construiu ali do seu trabalho e você consegue enxergar o seu investimento realizando sonhos de várias pessoas, isso não tem preço!  

 

Jaime Frenkel: 

Eu posso, então, dizer que a Moeda Semente é uma plataforma que conecta pessoas que querem fazer investimento, mas com um olhar diferente para o investimento. Que um  investimento que retorna em retorno financeiro, mas também em retorno de impacto social ou ambiental positivo. E é um tipo de investimento que está vindo cada vez em maior demanda no Brasil e no mundo com pessoas que precisam desse investimento para poder fazer seu trabalho e, com isso,  gerar esse impacto. Dá para pensar dessa maneira? 

 

Taynaah Reis: 

Com certeza é isso! Fazendo impacto com total transparência.  

 

Jaime Frenkel: 

E a transparência entra com a tecnologia do blockchain que vocês trouxeram…  

 

Taynaah Reis: 

Isso…  

 

Jaime Frenkel: 

Agora, Taynaah, para a gente fechar, a gente sempre gosta de pedir dicas de estudo que podem ser leituras, vídeos, conferências, mas para quem está interessado em aprender sobre empreendedorismo de impacto. Como é que uso blockchain para repensar a relação entre as pessoas. O que você recomendaria em termos de estudo? 

 

Taynaah Reis: 

Tem alguns livros sobre blockchain. O Revolução Blockchain, do Don Tapscott, seria um livro interessante para começar. Hoje tem muita coisa no YouTube. E também ler o white paper do Bitcoin, ler alguns white papers dos projetos que iniciaram para entender a parte de disrupção dessa tecnologia e a aplicação dela. Hoje são inúmeras aplicações, eu vejo que o blockchain está permeando diversos setores: da saúde, o jurídico, da educação, projetos sociais e projetos de impacto. 

Em questão de projetos de impacto tem também o livro de The Impact Investor, do Clark, Emerson; tem um livro chamado Global Handbook of Impact Investing, que é muito bom também, cita os casos do Muhammad Yunus, quem está fazendo, uma bíblia do impacto [risada]. São livros, né, que estão aqui na minha cabeça e que eu citaria para começar, mas tem muita coisa que está se construindo.  

Interessante essa pergunta porque vieram menos de cinco livros na cabeça, assim. Eu espero que, daqui a uns 10 anos, as bibliotecas possam ter sessões só desses temas, mas são temas que estão iniciando no espectro da tecnologia. O blockchain a gente tem o primeiro caso de sucesso com o Bitcoin. Então é recente comparado a outras coisas. E o ESG, o impacto vem se popularizando tem uns bons dois anos, que a gente ouve falar. Então se informar é crucial e se informar sobre os protocolos diferentes de blockchain. Se você está pensando em desenvolver alguma solução em blockchain, estudar os diferentes protocolos. Eles têm prós e contras de cada protocolo. Hoje, na Moeda a gente implementou cerca de seis protocolo. Cada um faz uma coisa diferente e dava uma resposta diferente dentro da nossa solução como um todo. Não tem, assim um protocolo que vai resolver toda a sua vida e de tudo o que você quer. Então essa integração de protocolos, estudar… estudar quem está implementando essas soluções.  

Hoje tem a Lei LGPD, então preciso de um protocolo que registra  informações de forma pública, mas que também dá para ser privado. É o Hyperledger Fabric, literaturas da IBM, tem cursos da IBM no Hyperledger Fabric também, que são acessíveis. Você quer ir para uma área que você precisa de dados públicos e privados, a gente indica esse protocolo. Tem o próprio Ethereum, que tem a moeda ETH, esse protocolo você consegue fazer contratos inteligentes, que são programações dentro da transação. Então tenho uma série de possibilidade de logística, de você usar para rastreabilidade de produtos. Então, se você trabalha no setor de alimentos, em algo assim, essa questão da rastreabilidade vai ser muito importante para o consumidor final. E entender determinado produto, se você diz que é sustentável e que está plantando as árvores, o jovem de hoje em dia, eles vão querer saber onde é que está a árvore e quem está impactando essa questão da transparência. Cada protocolo tem uma finalidade diferente então é importante estudar as soluções e estudar outros projetos também, assim como a Moeda, que implementaram.  

E a gente está sempre aberto nos canais de comunicação a parcerias, a explicar e contar um pouquinho mais dessa parte técnica do Bitcoin, como foi. Essa oportunidade que a gente teve aqui hoje, de contar sobre o modelo de impacto, de trabalhar com impacto e ajudar nessa parte educativa e essa mudança de mentalidade, de mindset para as pessoas estarem atentas que existe essa opção de investir e de transformar.  

 

Jaime Frenkel: 

Infelizmente, a gente está chegando no final da nossa conversa de hoje. Posso falar por mim e pelo Vini aqui que foi um prazer, uma honra poder conversar contigo! Conhecer um pouco da sua história, ver desde a sua trajetória que combinou o exemplo do seu pai, de fazer, de empreender em um contexto superdifícil do mundo público. Em criar o Pronaf e ele também te inspirou a aprender sobre tecnologia desde criança, e essa trajetória te levou a criar algo tão bonito quanto a Moeda Semente, que acho que junta uma demanda muito forte da geração Z, mas também de outros adultos que querem fazer investimento, mas com uma cabeça diferente com pessoas também ali na ponta e que precisam muito desse investimento para mudar a sua realidade. Como o caso de uma mulher que estáno agro e precisa da sua independência financeira. Então para a gente foi um prazer! Eu espero que você tenha gostado tanto da conversa quanto a gente. Muito obrigado! 

 

Taynaah Reis: 

Eu que agradeço, eu adorei! Estou à disposição para o que precisar, pode contar com a gente em qualquer lugar, a qualquer momento. Eu espero voltar também para contar mais coisas depois que a gente fizer os lançamentos deste ano.  

 

Jaime Frenkel: 

Depois de março a gente marca, quando sair as novidades!  

 

Taynaah Reis: 

Maravilha! Sucesso! 

 

[Música] 

 

Jaime Frenkel: 

E, pessoal, vale lembrar que a EloGroup atua exatamente no sentido de auxiliar as empresas a fazer inovação com impacto. Em muitos casos a gente vai ter um foco, logicamente, no impacto em termos de resultado para empresa, em termos financeiros e retorno para o acionista, mas a gente sempre trabalhar também com a visão do impacto social e do impacto ambiental. Em muitos casos, a gente tem feito trabalhos com foco no ESG, onde a gente tenta discutir como é que a gente pensa o conceito de valor compartilhado para as empresas. Como é que eu garanto que, para gerar retorno para o acionista, eu também vou estar contribuindo para a sociedade e para o meio ambiente.  

É isso, pessoal, espero que vocês tenham gostado e aprendido tanto quanto eu na conversa de hoje, e fiquem atentos nas redes sociais da EloGroup para acompanhar o desdobramento deste episódio e também a conversa sobre inovação, transformação digital, criptoativos e muito mais do que está rolando por aí.  

Foi ótimo conversar com vocês, um abraço e até a próxima!  

 

[Vinheta final] 

 

Esse podcast foi editado pela Maremoto. 

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